“O velho que lia romances de Amor” Luís Sepúlveda – Ecos


No processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, tive ocasião de ver o filme “O velho que lia romances de amor”, baseado na obra literária do autor Luís Sepúlveda. De origem chilena, este escritor ficará para sempre ligado a Portugal por causa do motivo da sua morte. Diagnosticado em fevereiro 2020 com covid 19, viria infelizmente a falecer em Gijón, Espanha, depois da sua última aparição em público ter sido na Póvoa de Varzim num encontro literário.

O romance “O velho que lia romances de amor” foi dedicado a um amigo de nome Chico Mendes, herói da defesa da floresta da Amazónia. O velho é o autor principal e um vasto conhecedor do meio. Dotado de uma visão e sabedoria destacáveis, consegue manter manter boas relações com todos, inclusive com os que não gostam dele, sem usar a força, com boa educação e boas maneiras, sem levantar o tom, sem ser arrogante. Faz lembrar um ditado antigo: “A língua suave pode quebrar um osso”. Vive uma relação de forças com o prefeito (representando o Estado), que usa a lei para se impor e proteger com um notório abuso de autoridade. Um dia, um dos gringos, ou estrangeiros que se instalam nesta terra com o objetivo de explorar as suas riquezas naturais, estupidamente ataca os filhotes de uma onça, sendo depois morto por ela. A fúria invade o animal que se vinga em todo ser vivo que encontra com sangue humano a circular dentro das veias. Depois do aparecimento de vários cadáveres, Bolivar decide que é hora de parar aquela carnificina e sair numa expedição para capturar o perigoso animal. Esta não corre bem por causa da constante insistência  do incompetente prefeito em comandar as operações. Plano seguinte, com o qual todos concordam, deixar Bolivar sozinho até encontrar o animal. Corajosamente, enfrenta-o, levando a melhor neste duelo, sem demonstrar no entanto qualquer sentimento de vingança ou ódio. Usa a força e a inteligência necessárias para se sobrepor ao instinto feroz do felino, fazendo-o porém com muita dignidade, respeito e elevação. Até no momento final em que “enterra” o animal, deixa transparecer quão condoído se sente.

À medida que a história se desenrola a força das palavras, o desejo de saber mais a busca por literatura são uma constante no dia a dia do velho. Com notória dificuldade em soletrar as palavras, não desiste. O seu lado romântico e encantador não passam despercebidos, de modo particular junto das mulheres. Foi presenteado de forma especial depois do ato heróico em que arrisca a vida em prol dos outros.

Há uma frase um pouco “gasta”, mas muito assertiva: “Leitura é cultura”. Ler faz-nos pensar, sonhar, emocionar, refletir, acreditar, acumular conhecimentos e passar a olhar o mundo com outros olhos. Também acalma, dando de alguma forma uma paz de espírito que se transmite e silenciosamente dá sinais a quem nos observa e rodeia de que não somos ameaça. Transmite segurança. Chegados aqui, as bases para estabelecer pontes de amizade e confiança mútuas estão lançadas.

Com a leitura alimentamos o espírito. Isso torna-nos indivíduos mais simples, mais acessíveis, mais altruístas e por consequência menos gananciosos. No fundo, desmaterializamos um pouco os nossos desejos, contentando-nos com o básico para viver. Sentimo-nos bem connosco próprios e com toda certeza, se eu estiver de bem com a vida, de bem comigo, estou muito mais disponível para partilhar. Além disso, se tiver o ouvido atento, a palavra e o tom certos no momento certo, atrairei pessoas de toda estirpe. Sentir-me-ei útil e desejado mas sem qualquer tipo de presunção, ou arrogância intelectual. A leitura torna sonhos reais. Parece milagre….

João Domingues – Candidato do processo de RVCC de nível secundário

Revisitar a obra de Orwell “1984” à luz do Referencial de nível secundário de Educação de Adultos


No dia 21 de janeiro 2020, demos início ao nosso projeto:  Leituras com Arte – Ler + Qualifica com a  exibição do filme  1984, baseado no romance de George Orwell (1949). Numa articulação com o Referencial de Competências-chave de nível secundário, pretendeu-se, proporcionar aos adultos em formação no nosso Agrupamento a aventura do encontro com os livros. Partilhamos hoje um dos resultados desta iniciativa que muito nos enche de orgulho. Propomos-lhe o revisitar da obra de Orwell pelos olhos do candidato do processo de RVCC, Jorge Ferreira.

“O romance “1984”, de George Orwell, publicado em 1949, do qual resultou um filme, marcou a minha adolescência a par das obras de Huxley e Kafka. Nele funde-se o regime ficção e a realidade dos totalitarismos europeus da altura.

Na obra, ninguém consegue escapar ao olhar constante do Big Brother, cuja imagem é difundida por toda a parte. Em Portugal, a figura de Salazar, tal como o Big Brother é o Grande Salvador da Pátria, uma espécie de figura epopeica, o único capaz de solucionar os problemas da nação fortemente hierarquizada, impondo desta forma, o culto ao líder.

Os regimes totalitários partilham um elemento comum na sua origem: uma grande crise económica. Nestes cenários caóticos, as figuras autoritárias são eleitas e acumulam todos os poderes, como única solução radical. O populismo ganha força, através de fomentação de ódios a determinadas categorias sociais e de um complexo sistema de propaganda, pensado para controlar a capacidade de questionamento. É anulada a liberdade de expressão, através de mecanismos de censura, a vida pública sofre uma enorme repressão e o acesso à educação fica reservado sobretudo às elites.

Em Portugal, entre 1945 e 1969, a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), foi responsável por uma enorme repressão individual. Na obra de Orwell, podemos compará-la com a Polícia do Pensamento, perseguindo pessoas por denúncias, recorrendo à tortura como meio de obter informações, sendo também responsável por diversos assassinatos.

Tal como na obra de Orwell, em Portugal, a União Nacional, era o partido único, uma vez que a oposição era fortemente perseguida e reprimida. Este partido era também responsável por uma retórica violenta contra supostos “inimigos internos” que contribuem para a degradação moral da nação. Através da censura, tanto na esfera cultural, como no ensino, à semelhança da obra de Orwell, o Ministério encarregava-se de censurar a história, reescrevendo constantemente os factos do passado. Também o Estado Novo atribuía uma enorme importância à propaganda, criando em 26 de outubro de 1933, o SPN – Secretariado da Propaganda Nacional, com o intuito da divulgação do ideário nacionalista a na padronização da cultura e das artes do regime.”

O Centro Qualifica vai ao teatro: “Para ti, Sofia”


Em 2019 comemorou-se o nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen e Trigo Limpo teatro ACERT  (Tondela) pretendeu homenagear a autora inspirando-se em quatro livros da autora que fazem parte do Plano Nacional de Leitura.

O espetáculo vai ser apresentado no âmbito do Encontro de Teatro 2020, uma organização do Teatro Amador de Pombal, a realizar no próximo dia 12 de janeiro (domingo), às 17h00, no Teatro-Cine de Pombal.

O Centro Qualifica aceitou o convite para redescobrir o mundo através do olhar dos mais “pequenos”, relembrar que tudo tem a magia dos sonhos que a realidade é também o que imaginamos.

Junte-se a nós na valorização da poesia e a literatura portuguesa!

Cristina Costa – Coordenadora do Centro Qualifica

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Leitura e cinema no Centro Qualifica


A apresentação do livro do jornalista norte-americano Franklin Foer “Mundo Sem Mente”, com a leitura de alguns excertos e o visionamento do filme “Jogo de imitação” do realizador norueguês Morten Tyldum foram fonte de conhecimento e agentes de reflexão nas sessões de formação do processo RVCC e curso EFA de nível secundário, no serão de 28 de janeiro.

A mensagem de uma obra que denuncia o impacto da alta tecnologia no dia-a-dia e sobretudo a invasão da privacidade dos utilizadores da Google, da Amazon, do Facebook, da Microsoft e da Apple não poderia ser mais oportuna para cumprir os objetivos das áreas de competências-chave de Sociedade, Tecnologia e Ciência e de Cultura, Língua e Comunicação no que se referem à  temática redes e tecnologias.

Com referências a Alan Turing, Stuart Brand e as origens hippies de Silicon Valley, a obra apresenta-nos os fundamentos da GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon) e questiona (denuncia) se o seu intuito subjacente não será de moldar a humanidade à imagem que deseja.

Num aprofundamento sobre o conhecimento de Alan Turing matemático, criptoanalista britânico com um papel relevante na criação do computador, os candidatos em processo RVCC e os formandos do curso EFA puderam ainda assistir ao filme “Jogo de imitação”.

Como em toda a sessão de cinema, não faltaram pipocas. Aliou-se o prazer de ler e de assistir a um filme à urgência da reflexão. Em tempos da vertiginosa evolução das tecnologias de informação e da comunicação deparamo-nos com a necessidade de não nos deixarmos deslumbrar.

“Facilmente nos maravilhamos com estas empresas e suas invenções, as quais costumam facilitar-nos a vida. Mas já perdemos demasiado tempo maravilhados. Chegou a altura de pensarmos nas consequências destes monopólios, de reavaliarmos o nosso papel na determinação do rumo humano. A partir do momento em que cruzemos determinados limites – assim que transformarmos os valores das instituições, assim que abandonarmos a privacidade – não haverá regresso, não teremos como restaurar a individualidade perdida”.

Franklin Foer

Cristina Costa – Coordenadora do Centro Qualifica