No dia 11 de junho de 2026, realizou-se mais uma sessão de certificação de nível secundário no Centro Qualifica. Os dois trabalhos apresentados abordaram temas distintos, mas unidos por uma questão comum: a influência das ideias, dos discursos e dos movimentos coletivos na construção das sociedades. Enquanto uma candidata analisou o impacto das comunidades digitais associadas à chamada manosfera, outro candidato refletiu sobre os momentos revolucionários que marcaram a história de Portugal.
A primeira apresentação, desenvolvida com recurso ao Gamma AI, teve como tema “Manosfera: Influência Digital ou Perigo Social”[1], inspirada no documentário da Netflix “Louis Theroux: Inside The Manosphere”.
Partindo da análise do documentário, a candidata explicou o conceito de manosfera e as suas principais características, destacando a forma como alguns destes movimentos se apresentam como defensores dos homens perante aquilo que consideram ser os excessos do feminismo. Referiu a utilização do conceito de “pílula vermelha”, retirado do filme Matrix, como metáfora para um suposto despertar para uma nova visão das relações entre géneros.
Ao longo da exposição, refletiu sobre a dualidade e complementaridade entre masculino e feminino, utilizando o símbolo Yin e Yang como ponto de partida para analisar de que forma a manosfera tende a distorcer essa relação de equilíbrio. Abordou ainda temas como a misoginia, a valorização excessiva da aparência física, a agressividade verbal, a ostentação de riqueza e as estratégias utilizadas por alguns influenciadores digitais para captar seguidores e promover esquemas de enriquecimento pessoal.
A candidata analisou igualmente a utilização de notícias falsas e teorias da conspiração como forma de amplificação da influência digital, bem como as ligações identificadas entre alguns setores da manosfera e movimentos políticos de extrema-direita. A apresentação terminou com uma reflexão sobre a igualdade de género, ilustrada através do trabalho fotográfico desenvolvido por Eli Rezkallah, que reinterpretou anúncios publicitários da década de 1950 para questionar estereótipos ainda presentes na sociedade contemporânea.
Seguiu-se a apresentação do segundo candidato, também apoiada pela ferramenta Gamma AI, sob o título “Cinco Revoluções, Um País”[2], inspirada na série documental da RTP As Cinco Revoluções Portuguesas.
Começando por explorar o conceito de revolução e os seus diferentes significados, o candidato conduziu o júri por alguns dos momentos mais marcantes da história nacional. Iniciou a sua exposição com a crise de 1383-1385, destacando a importância do controlo da informação e das narrativas políticas, numa reflexão que estabeleceu paralelos com fenómenos atuais.
Prosseguiu com a Restauração da Independência, abordando o contexto político e económico da época e algumas das medidas fiscais implementadas. Analisou depois a Revolução Liberal e as transformações introduzidas pela Constituição de 1822, sublinhando a importância deste documento para a afirmação dos princípios liberais em Portugal.
A apresentação prosseguiu com a Implantação da República, identificando os seus principais contributos para a sociedade portuguesa, mas também algumas das fragilidades que marcaram este período. Por fim, dedicou especial atenção à Revolução de 25 de Abril de 1974, destacando as conquistas alcançadas ao nível da democracia, das liberdades fundamentais e da participação cívica.
A qualidade das apresentações e a pertinência dos temas escolhidos evidenciaram, uma vez mais, a capacidade dos candidatos para relacionar conhecimentos adquiridos ao longo da vida com desafios históricos e sociais de grande relevância. Esta sessão de certificação demonstrou como o processo de RVCC continua a promover o desenvolvimento do pensamento crítico, da cidadania ativa e da reflexão informada sobre o mundo contemporâneo.
[1] https://gamma.app/docs/A-Manosfera–kwjipzoyiwf4thi
[2] https://gamma.app/docs/Cinco-Revolucoes-Um-Pais-3bzdoztxmnbqx3m
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
Adaptação e Mudança
No dia 28 de maio de 2026, realizou-se mais uma sessão de certificação no Centro Qualifica. Apesar de distintos, os temas apresentados pelos candidatos partilharam um traço comum: a capacidade de adaptação à mudança. Seja através de uma experiência de mobilidade entre países ou da reflexão sobre os impactos da Inteligência Artificial no futuro da humanidade, ambos os trabalhos evidenciaram competências de análise, espírito crítico e aplicação de conhecimentos a situações concretas da vida pessoal e social.
A sessão iniciou-se com a prova de uma candidata de nível básico, que apresentou o trabalho final intitulado “Mudança de Vida: De Pombal para Girona”. Partindo da sua experiência pessoal, descreveu o percurso que a levou do Brasil a Portugal e, posteriormente, a Espanha, analisando diferenças linguísticas, culturais e políticas entre os três países.
Ao longo da apresentação, abordou ainda alguns momentos históricos marcantes das relações entre Portugal e Espanha e explicou as várias etapas de preparação da sua mudança para Girona.
Num segundo momento, teve lugar a certificação de um candidato de nível secundário, que apresentou o tema “Entre Humanos e Máquinas: Dilemas Éticos em Eu, Robô de Isaac Asimov”[1], recorrendo à ferramenta Gamma AI para apoiar a sua exposição.
Partindo da obra “Eu, Robô”, o candidato começou por apresentar o autor Isaac Asimov e as célebres Três Leis da Robótica, explorando de seguida a sua relevância para os desafios contemporâneos colocados pela evolução tecnológica. Através da análise de diferentes contos da obra, refletiu sobre questões éticas cada vez mais presentes na sociedade atual.
Ao abordar o conto “Robbie”, analisou o impacto da tecnologia nas relações humanas e o risco de substituição de interações pessoais por dispositivos tecnológicos. Com base em “Raciocinar”, refletiu sobre a problemática da singularidade tecnológica e os possíveis cenários futuros associados ao desenvolvimento da Inteligência Artificial. Já através de “A Prova”, explorou conceitos relacionados com identidade e moralidade utilitária, enquanto em “Conflito Evitável” discutiu os benefícios e os riscos da utilização da Inteligência Artificial na tomada de decisões políticas e económicas.
Esta sessão de certificação demonstrou, uma vez mais, como o processo de RVCC permite valorizar aprendizagens realizadas em diferentes contextos e transformar experiências de vida em oportunidades de crescimento pessoal, académico e profissional.
[1] https://gamma.app/docs/Entre-Humanos-e-Maquinas-Dilemas-Eticos-em-Eu-Robo-de-Isaac-Asimo-k06ldew6g5my1n9
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
Memória e futuro
Conhecer a nossa história é mais do que recordar o passado… É compreender o caminho percorrido, reconhecer os desafios superados e valorizar as aprendizagens construídas ao longo da vida. No processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), esta reflexão assume um significado especial. Ao revisitar experiências pessoais, profissionais e sociais, cada adulto redescobre o valor do seu percurso e transforma experiências em competências reconhecidas. Mas o RVCC é também um espaço de aprendizagem, onde novos conhecimentos ajudam a compreender melhor o mundo e a projetar o futuro.
Foi precisamente esta ligação entre memória, aprendizagem e futuro que marcou a sessão de júri de certificação realizada no dia 14 de maio de 2026.
Na apresentação do seu trabalho, a candidata recorreu à ferramenta Gamma AI para desenvolver o tema “Direitos das Mulheres: do Passado ao Futuro”[1], inspirado na canção Por Nos Darem Tanto, de Ana Bacalhau. Através desta reflexão, explorou a evolução dos direitos das mulheres em Portugal, desde as limitações impostas durante o Estado Novo até às conquistas alcançadas após a Revolução de Abril.
Sendo natural do Brasil, este trabalho constituiu também uma oportunidade de aprendizagem sobre a história contemporânea portuguesa. A pesquisa realizada permitiu-lhe compreender melhor o contexto do Estado Novo e a importância das transformações sociais e políticas que contribuíram para a promoção da igualdade de direitos.
Ao longo da apresentação, destacou o contributo de mulheres que marcaram a luta pela igualdade, como Beatriz Ângelo, Maria de Lourdes Pintasilgo, Natália Correia, Bertha Lutz, Maria da Penha, Malala Yousafzai e Rosa Parks. Abordou ainda o conceito de “telhado de vidro”, exemplificando-o através de figuras como Angela Merkel, Marie Curie e Serena Williams.
Concluindo com uma reflexão sobre os progressos alcançados e os desafios que persistem, a candidata reforçou a importância de uma cidadania ativa na promoção da igualdade de género.
Esta sessão evidenciou uma das maiores riquezas do processo RVCC: a capacidade de valorizar a experiência de vida dos adultos, ao mesmo tempo que promove novas aprendizagens. Porque conhecer o passado, seja o nosso ou o da sociedade em que vivemos, é um passo essencial para construir o futuro.
[1] https://gamma.app/docs/Direitos-das-Mulheres-do-Passado-ao-Futuro-fpsg5g5lw2z2xze
(Des)Informação em Rede
A perceção da realidade tem sido profundamente afetada pelo desenvolvimento tecnológico, sobretudo com o surgimento da internet e a massificação das redes sociais. Num mundo permanentemente interligado, os dados fluem a alta velocidade, permitindo o acesso, em meros segundos, a relatos de acontecimentos do outro lado do planeta. Apesar de este fluxo de informação parecer anunciar a chegada da chamada Era do Conhecimento, rapidamente percebemos que tal poderá não passar de uma ilusão.
Pelas mesmas vias circulam tanto factos comprovados como mentiras fabricadas, sendo a linha que os separa cada vez mais ténue. A desinformação, por si só, já constitui um perigo, porém, quando é instrumentalizada para mobilizar massas com fins nefastos, as consequências podem ser devastadoras.
Foi este o alerta que a candidata ao processo RVCC de nível secundário nos trouxe no dia 19 de março de 2026, através de uma apresentação[1] baseada no livro “Protocolo Caos”, de José Rodrigues dos Santos.
A candidata iniciou a sua exposição com a apresentação da obra e do seu autor, fazendo uma breve sinopse das três narrativas que se entrecruzam no livro. Referiu ainda Aleksandr Dugin e a influência da sua filosofia na política russa. Seguidamente, enumerou situações em que o governo russo terá interferido na política internacional, nomeadamente através da influência exercida nas redes sociais.
Explicou de que forma estas plataformas podem ser utilizadas como um verdadeiro campo de batalha, onde a desinformação explora medos preexistentes, alimentando preconceitos e acentuando divisões sociais. Apresentou também dois exemplos concretos dos efeitos nefastos das notícias falsas: o caso Pizzagate e a perseguição aos rohingyas em Myanmar.
Concluiu a sua exposição destacando o potencial da Inteligência Artificial na disseminação de desinformação, nomeadamente através da criação de deepfakes.
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
O Valor do Cuidado
Já no século XVII, John Donne escrevia que “Nenhum homem é uma ilha isolada”. A verdade é que o ser humano é um ser eminentemente gregário, que precisa da relação afetiva e de apoio dos outros humanos. Mesmo que a sociedade esteja cada vez mais individualista, essa necessidade de ligação não desaparece. Ora a candidata, que se apresentou para júri de certificação do processo de RVCC de nível secundário a 26 de fevereiro de 2026, é um elemento ativo da sociedade para o combate à solidão.
Enquanto cuidadora informal, ela conhece a importância de ser a mão que suporta e apoia o outro quando está frágil. Paralelamente, o seu papel enquanto mãe esteve sempre presente ao longo da sua vida. Por ter dado tanto, foi com naturalidade que algumas palavras de gratidão da sua filha surgiram no dia da certificação para descrever a sua mãe: “Como uma árvore em solo duro. Quando lá foi colocada na terra seca e cheia de pedras para criar raízes, a árvore teve de forçar caminho, onde nada parecia ceder. (…) Cresceu aos poucos, sob sol intenso e chuvas escassas, mas nunca deixou de crescer. Com o tempo, o tronco tornou-se forte para sustentar três ramos principais, os seus filhos, oferecendo sombra, alimento e abrigo. Mesmo cansada, a árvore estende os galhos para além de si, protegendo quem passa por baixo, porque cuidar dos outros já faz parte da sua natureza”.
Esta dimensão de cuidado e atenção ao outro reflete-se também na forma como estruturou a sua apresentação[1].
Começou assim por apresentar o filme “V de Vingança”, que é uma adaptação de uma novela gráfica. Com um pequeno excerto do filme, explicou de que forma o ditador tinha subido ao poder na realidade distópica retratada na obra. Evidenciou os mecanismos de controlo, quer através da comunicação social, quer com recurso às forças de autoridades, os “homens dedo”. Prosseguiu mencionando a proibição da cultura e a doutrinação ideológica dos mais novos. Utilizou um excerto do filme para demonstrar como era feita a perseguição às minorias. Referiu a origem histórica da máscara de Guy Fawkes, a sua simbologia e utilização por grupos ativistas. Comparou a ditadura do filme com o período do Estado Novo. Concluiu expondo a relevância deste filme na atualidade, analisando o caso concreto dos EUA e da governação de Donald Trump.
[1] https://gamma.app/docs/V-de-Vinganca-Ditadura-Opressao-e-Resistencia-ndhzorgqwd5kjuo
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
Nada é menor na arte
Em muitos círculos a arte é ainda vista por alguns como sendo inferior ao pensamento científico, parecendo ignorar que ambas são facetas essenciais ao desenvolvimento e evolução. A arte tem o potencial de estimular a criatividade, de promover a reflexão e de provocar emoções. Por vezes, o discurso excessivamente hermético das ciências não consegue tocar a essência da pessoa, falhando assim na mudança que tanto deseja promover. Nesse aspeto, a arte é mais transversal e imprevisível, alcança cada ser humano de forma particular, imiscuindo-se nas vivências que este já traz a priori.
Ora nos dias 17 e 18 de dezembro de 2025, os candidatos do processo RVCC de nível secundário demonstraram através das suas apresentações que não existem formas de arte menores, sendo possível retirar reflexões valiosas da literatura, poesia, música ou banda desenhada.
A primeira apresentação[1] baseou-se na música “Eldorado” de Sniper (feat. Faada Freddy), conseguindo com a letra desta analisar a problemática dos fluxos migratórios, das causas às estratégias globais (e.g. Pacto Global para as Migrações da ONU). Destacando a importância de respeitar as preocupações da população que acolhe, sem por isso esquecer os direitos humanos dos migrantes.
A segunda exposição[2] partiu da banda desenhada “Astérix na Lusitânia” para nos guiar numa viagem pela riqueza do património cultural em Portugal, começando pelas referências históricas como Viriato na resistência à ocupação romana ou a Revolução de 25 de abril de 1974, passando por elementos visuais (e.g. calçada portuguesa e azulejos) e gastronómicos (marcados pela dieta mediterrânica), terminado com figuras marcantes da nossa cultura, de Amália Rodrigues a Fernando Pessoa.
Seguiu-se uma apresentação[3] inspirada no poema “Árvore Tutelar” de António Arnaut. Começando por destacar um dos maiores legados deixados por este autor, o Sistema Nacional de Saúde, rapidamente se focou na responsabilidade de todos preservarmos os recursos naturais. Para isso apresentou o processo de consulta pública que esteve aberto em 2024 relativamente ao pedido de expansão da pedreira de “Chão Queimado” na Serra de Sicó.
Já no dia 18 de dezembro de 2025 tivemos uma análise[4] à obra “Regresso ao Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Depois de enquadrar historicamente a mesma e comparar duas das mais reconhecidas distopias do séc. XX (“Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley e “1984” de George Orwell), debruçou-se sobre as reflexões do autor sobre a questão da sobrepopulação. Confrontando as ideias da teoria malthusiana, a visão de Aldous Huxley e as previsões científicas da ONU mais recentes, concluiu que provavelmente o aumento populacional não deverá despertar alarmismos, considerando que se prevê que o mesmo estabilize até 2080.
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
[1] https://gamma.app/docs/El-Dorado-Em-busca-de-uma-vida-melhor-sjwxb4a0pykhuiv
[2] https://gamma.app/docs/Asterix-na-Lusitania–41t6xhac7bf3ny5
[3] https://gamma.app/docs/Arvore-tutelar-cuidar-da-Natureza–pohbsjpk9vv8uq6
[4] https://gamma.app/docs/Para-um-admiravel-mundo-novo-sobrepovoado-Sera-mesmo-r4o10tyv6rfuxee
O rio da vida
Com o verão, aproxima-se o período de férias. O calor convida a passeios, idas à praia e a momentos de família e amigos, no fundo, a aproveitar as coisas boas da vida, que por vezes deixamos em standby para responder às obrigações e responsabilidades diárias. Ora, a vida é como um rio que fluí e não volta para trás e esta é a premissa de dois poemas, que nos recordam a importância de viver o momento presente, mesmo discordando no papel e importância das emoções, partilham uma visão existencialista e epicurista. Falamos de “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira rio” de Ricardo Reis e “Homenagem a Ricardo Reis” de Sophia de Mello Breyner Andresen, sendo que os mesmos serviram de inspiração à prova de júri de certificação de nível secundário do dia 23 de julho de 2025.
A apresentação[1] começou com o áudio da declamação do poema “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira rio” de Ricardo Reis. Analisando o poema, a candidata destacou a influência da filosofia epicurista e da estética neoclássica, lembrando que a vida é retratada como um rio. Declamou o poema e “Homenagem a Ricardo Reis” de Sophia de Mello Breyner Andresen. Referiu algumas notas biográficas sobre a autora e analisou o poema, enfatizando que se trata de um discurso intertextual, que partilha uma visão existencialista com o poema anterior, mas ressalvando que a poetisa defende a importância de uma vida preenchida com emoções intensas. Relativamente a Sophia de Mello Breyner Andresen, explorou o seu papel na resistência ao Estado Novo, o seu papel na política enquanto deputada da Assembleia Constituinte. Concluiu lendo um excerto do discurso de Sophia de Mello Breyner Andresen na Assembleia Constituinte em defesa da criação do quadragésimo segundo artigo da Constituição da República Portuguesa em defesa da liberdade de criação cultural.
[1] https://gamma.app/docs/O-Dialogo-Poetico-Ricardo-Reis-e-Sophia-de-Mello-Breyner-Andresen-wfvo3z6g6dtdwoz
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
Não existe planeta B
Várias são as obras de ficção científica em que as naves circulam pelo espaço com a mesma facilidade com que hoje apanhamos um voo para uma cidade do outro lado do mundo. Nestas realidades existem múltiplos planetas habitáveis e o ser humano assume de novo o papel de explorador e por vezes colonizador desses habitats. No entanto, apesar de toda a evolução tecnológica, ainda não foi possível identificar de forma inequívoca um planeta que reúna as condições ideais à vida, quanto mais termos meios de viajar até lá. Muito provavelmente será uma questão de tempo, mas no compasso de espera, a única certeza é que apenas existe um planeta Terra e que da sua preservação depende a nossa sobrevivência. Claro que mesmo havendo outros mundos, não deixaríamos de ser responsáveis por salvaguardar o nosso “berço”, que é também o lar de muitas outras espécies.
Foi sobre este dever que se focou a apresentação[1] feita por uma candidata na sua prova de certificação do processo RVCC de nível secundário no passado dia 16 de abril de 2025, inspirada pela obra de Louise Bradford “Salvem o Mundo – Não existe planeta B”. Lembrando que o termo ecologia deriva da palavra grega oikos que significa lar, é em casa que podemos começar, implementando estratégias simples para poupar energia e água, reduzir o desperdício e evitar os produtos químicos mais nocivos para o ambiente e saúde. Por outro lado, ao adotarmos uma dieta mediterrânica, moderando a ingestão de carne e peixe e privilegiando o consumo de produtos locais e da época, bem com o azeite, podemos reduzir de forma muito significativa a nossa pegada de carbono. A água é um bem escasso (apenas 3% da água no mundo é potável), pelo que devemos implementar medidas para preservar este recurso. Para isso não basta ter em conta o nosso consumo direto, mas devemos estar alerta para a água utilizada na indústria, por exemplo para produzir um smartphone são utilizados 11 350L de água. Também o plástico apresenta grandes desafios ambientais, pois leva centenas de anos a decompor-se, produzimos toneladas deste produto todos os anos e apenas 9% do plástico chega devidamente às centrais de reciclagem. O restante vai parar aos oceanos e aterros, sendo responsável pela morte de milhares de animais marinhos. Para mudar basta repensar os nossos hábitos, nomeadamente a forma como vamos às compras. Pensando no exemplo da roupa, podemos investir em peças de vestuário de qualidade, com mais durabilidade, evitando a fast fashion. Também os tecidos escolhidos contribuem para o impacto ambiental, podendo privilegiar-se tecidos naturais. Finalmente para reduzir o consumismo podemos adotar a estratégia do armário-cápsula, em que se limita o número de peças de vestuário a 30, 50 no máximo (contando o calçado) e fazendo compras conscientes. O excedente pode ser doado, vendido ou reutilizado. Está nas mãos de cada um de nós contribuir para a mudança.
[1] https://gamma.app/docs/Salvem-o-Mundo-Nao-Existe-Planeta-B-8zjafhhedqv8cfv
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
Tradição e Inovação
Manda a tradição que depois de uma sessão de júri de certificação seja publicado um post para divulgar este momento, refletindo sobre as aprendizagens realizadas, não só pelos candidatos, mas por todos os elementos envolvidos. Ainda bem que existem rotinas e padrões que permitem dar alguma previsibilidade a um mundo mutável e instável. Preservar e respeitar o conhecimento daqueles que nos precederam é um sinal de sabedoria, pois só assim podemos evitar a repetição dos erros passados e encontrar respostas mais rápidas para problemas no imediato. Contudo, não podemos cair na tentação de cristalizar os nossos hábitos. Mesmo que um inseto preservado em âmbar possa parecer belo ao primeiro olhar, neste processo ele perdeu a vida e capacidade transformadora da metamorfose. Assim é preciso dosear o respeito pela nossa história e complementá-la com análise crítica e criatividade, entendendo que aquilo que fez sentido num determinado momento, poderá não se enquadrar na realidade atual.
Neste sentido a primeira apresentação, inspiradas nas considerações de Yuval Harrari sobre os desafios tecnológicos na sua obra “21 Lições para o Século XXI”, fomentou a reflexão em torno do impacto que o desenvolvimento da Inteligência Artificial e de sensores biométricos poderá ter no mercado de trabalho. As potencialidades destas tecnologias são inegáveis, superando já o ser humano na sua capacidade de executar algumas tarefas de forma rápida, em permanente conexão com outros sistemas e atualização imediata. Mais preocupante se torna quando percebemos que a IA invadiu o espaço que se considerava exclusivo dos seres humanos, a cognição. Prevê-se que estas inovações constantes resultem no desaparecimento de profissões (principalmente aquelas que exigem menos habilitações) e no surgimento de equipas centauro, em que humanos e máquinas cooperaram para a realização de tarefas. Estas mudanças irão exigir atualização constante de conhecimentos e muita capacidade de gerir o stress, pois não é fácil viver com a dúvida: Será que a minha profissão ainda vai existir amanhã?
Já a segunda exposição partiu da história da China, tal como é relatada na obra “Cisnes Selvagens: Três filhas da China” de Jung Chang, para analisar questões da atualidade. Neste livro a narradora conta a história da sua família, três gerações de mulheres, evidenciando como as alterações políticas na China tiveram impacto na trajetória das suas vidas. As experiências da avó Daotai lembram-nos como a tradição pode ser usada para perpetuar desigualdades de género, quer seja através da prática do pé de lótus ou de casamentos arranjados. Não é porque “foi sempre assim” que é justo ou correto. Já a época da mãe Wu Chunrong corresponde ao período de ascensão do comunismo na China e implementação da ditadura. A falta de liberdade mantem-se até ao final da obra, sendo a razão que levou Jung Chang a emigrar. Ainda que com pequenas nuances e alterações estratégicas, a China continua numa ditadura, em que há vigilância e controlo da população. Se por um lado a diversidade de ideologias e culturas é favorável ao desenvolvimento e à evolução, por outro há situações que não são aceitáveis por porem em causa os Direitos Humanos (e.g. campos de reeducação).
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
Na Era da Inteligência Artificial
Uma vez mais dou por mim a iniciar um post referindo a evolução tecnológica e a verdade é que ela é cada vez mais incontornável. A uma velocidade estonteante surgem novidades quase todos os dias e aquilo que há poucos anos pareceria mero produto de ficção científica, torna-se uma banalidade da atualidade. A este ritmo será tão estranho para a próxima geração uma realidade sem Inteligência Artificial (IA), como hoje é desconhecida a funcionalidade de uma disquete ou de uma cassete, sem falar de uma lista telefónica, para os mais jovens.
As preocupações com as consequências desta evolução não são novidade, pois mesmo antes da IA ser uma realidade, já existiam obras de ficção que pintavam os cenários mais pessimistas. Esperemos que Skynet de “O Exterminador Implacável” ou Viki de “I, Robot” permaneçam no sector do entretenimento. Se as opiniões se dividem quanto ao futuro que nos espera e não podemos apenas seguir as vozes dos “velhos do Restelo”, também não devemos assobiar para o lado e ignorar os riscos existentes. O mais importante será mantermo-nos atualizados, acompanhando os desenvolvimentos.
E é aqui que a educação desempenha um papel de destaque, incentivando à exploração destas novas ferramentas de forma responsável, soprando gentilmente para manter a brasa do espírito crítico acesa. Foi numa dessas lufadas que um dos candidatos do processo RVCC de nível secundário foi desafiado a fazer uma apresentação para a prova de certificação de dia 12 de dezembro de 2024, inspirada no livro “A Era da Inteligência Artificial” de Henry Kissinger, Eric Schmidt e Daniel Huttenlocher.
Na sua apresentação foram referidos os contributos de Alan Turing e John McCarthy para uma definição de IA e os principais marcos no desenvolvimento desta tecnologia. Analisando as razões pelas quais a IA ainda falha, reforçou a importância de existirem mecanismos de verificação da qualidade das respostas dadas. Concluiu a explorando os dilemas de recorrer a IA em três contextos diferentes, nomeadamente nas plataformas de rede, ao nível político ou para fins bélicos.
Mikael Mendes – Técnico de ORVC