Quotidianos Femininos durante o Estado Novo


No dia 14 de novembro 2023, associámo-nos aos formandos do curso EFA na sua Atividade Integradora, “Desafios das novas dinâmicas e estilos de vida na sociedade atual” e estivemos no auditório Dra Gabriela Coelho para assistir a uma conferência sobre “Quotidianos Femininos em Portugal – 1930 – 1950”.

A professora Maria Alice Guimarães, professora de história na nossa escola, começou por apresentar fotografias da exposição “Mundo Português” que decorreu junto ao Tejo, em junho 1940. Enquanto a Europa estava em guerra, em Portugal, celebrava-se o colonialismo. Esta data recordava a fundação de Portugal (1143) bem como a Restauração da Independência em 1640. O evento foi um ponto alto da Propaganda levada a cabo por António de Oliveira Salazar.

A professora socorreu-se também de “A Lição de Salazar”, cartaz de uma série editada em 1938 pelo Secretariado da Propaganda Nacional, a fim de ser comentada pelos Professores nas escolas primárias. Com o objetivo de ilustrar a trilogia “Deus, Pátria e Família”, no centro de uma cozinha, aparece em destaque um crucifixo pousado numa cómoda, a dona da casa está metida na lareira a cozinhar, a sua filha está rodeada de alguns brinquedos e o filho está vestido com a farda da mocidade portuguesa. Os olhos estão postos no pai que está a regressar do trabalho do campo. Pela janela, vê-se um castelo medieval com a bandeira hasteada, símbolo da nação.

As famílias eram numerosas pois como não havia reformas, os filhos ajudariam no sustento da casa. Imperavam altas taxas de mortalidade infantil (150%) em parte pelo excesso de trabalho e falta de assistência materno-infantil. A ideologia vigente atribuía esta assistência  à iniciativa particular e considerava que esta devia ser prestadas no seio do lar. A OMEN – Obra das Mães pela Educação Nacional era responsável pela solidariedade com a oferta de berços, por exemplo.

Com recurso à leitura de alguns trechos, a professora clarificou que “à esposa cabia o dever de amparar e animar o marido, o irmão ou o filho; devia apresentar-se perante o homem frágil, humilde e delicada; a mulher era feliz quando vivia na tranquilidade do lar, quando educava os filhos e quando cultivava o seu jardim”.

Foi também apresentada uma cronologia da atribuição do direito de voto à mulher. Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher portuguesa a votar (1911). Valeu-se da interpretação da lei que permitia o voto aos chefes de família. Sendo ela viúva, exerceu esse seu direito, mas a lei foi rapidamente alterada para “chefe de família, homem”. Em 1931 o Dec-Lei nº 19 694 de 5 de maio atribuiu o direito de voto às mulheres detentoras de um curso secundário ou universitário. Em 1946, este foi alargado às chefes de família (divorciadas, viúvas e solteiras) que soubessem ler e escrever ou pagassem ao Estado uma quantia não inferior a 100$00 de impostos.  A lei Eleitoral nº 2317, de 26 de dezembro permitiu o alargamento do número de votantes  a todos os que soubessem ler e escrever e finalmente, em 1974 temos o sufrágio Universal com a Lei nº 621/74 de 15 de novembro.

A professora salientou também o elevado analfabetismo em Portugal. As mulheres, na sua maioria, estudavam apenas até à terceira classe e os homens faziam a quarta classe.

A Propaganda apostava também na divulgação de ementas numa altura  de baixos salários e de senhas de racionamento durante o período da guerra. De igual modo, a  moda adaptou-se aos tempos de escassez que se refletiu, por exemplo, nas saias mais curtas para poupar tecido.

Com imagens apelativas com destaque paras fotos de Maria Lamas com retratos das mulheres do povo do nosso país, a professora cativou todos os presentes. De modo particular, ajudou os candidatos com mais idade (candidatos do processod e RVCC) a compreenderem que as marcas do Estado Novo demoraram algum tempo a esbater-se. Foram muitas as partilhas das vivências que esta sessão suscitou sendo que todos começaram a trabalhar com 12, 13 anos e os percursos profissionais passaram, por exemplo, pela função de “sopeira” em Lisboa tal como acontecia nos anos 50.

Cristóvão, Isabel, Helena,  José e Raquel – Candidatos do processo RVCC

Saber esperar…


…é uma virtude, diz-nos a sabedoria popular. E, no dia 22 de junho, na sessão de júri de certificação, foi possível verificar como histórias de vida e escolhas tão diferentes tiveram este lema como denominador comum, além dos receios de voltar a uma escola sem ser para participar em reuniões como encarregadas de educação.

Se a R. tinha noção de que as letras iriam causar-lhe entropia, já para a C. esse papel seria assumido, sobretudo, pelos números. Estavam assim encontradas, à partida, duas das áreas mais desafiantes: Cultura, Língua e Comunicação e Matemática, Ciências e Tecnologia.

Foi preciso saber esperar para perceber que, hoje, a idade é outra e a forma de assimilar conteúdos e acondicioná-los nos existentes também é diferente. Aos poucos, a C., habituada a conviver com duas vozes dentro de si – uma que tenta travá-la e fazê-la não acreditar que consegue alcançar os seus objetivos e outra que lhe diz para confiar e seguir em frente –, aprendeu a geri-las e a dar mais importância à que a encoraja. Já a R., tão dedicada nos seus poucos tempos livres ao cultivo do seu terreno e conhecedora das suas necessidades, soube durante o processo de RVCC deitar a semente à terra, regar e cuidar para lhe ser possível colher o tão esperado fruto.

Nem sempre é fácil saber esperar, sobretudo num mundo em que tudo acontece tão depressa, em simultâneo e em que tanto se pretende instantaneamente. Saber esperar é uma virtude que nos protege e fortalece diante de adversidades e ajuda a agir com um propósito de vida. Embora a espera por vezes possa ser longa, é importante não abandonar com antecedência os objetivos e esperar vivendo e não apenas esperando… e foi precisamente isso que a C. e a R. fizeram antes de tomarem a decisão de entrar pela porta do nosso Centro Qualifica.

Isabel Moio – Técnica de ORVC

Chave mestra


A vida nem sempre nos leva pelos caminhos que pretendemos, com frequência encontramos portas blindadas que nos impedem de avançar. A reação mais fácil é baixar os braços, mas se persistirmos é possível encontrar alternativas. A candidata que se apresentou no dia 11 de maio para uma sessão de júri de certificação de nível secundário é um exemplo disso mesmo.

Com uma vida rica em experiências, notava-se o gosto em partilhar as suas lutas e conquistas. A parte escrita era um desafio, principalmente para conseguir passar para o papel, aquilo que tão fluentemente relatava.

Nunca desistiu de aumentar as suas qualificações, reconhecendo esta etapa como uma “Chave Mestra” que lhe possibilita a abrir triunfante mais uma porta e explorar novos e desafiantes caminhos.

Mikael Mendes – Técnico de ORVC

(Sobre) saltos


“Sobressaltos da vida” foi o título que a candidata que obteve certificação de nível B3 no dia 20 de abril atribuiu ao seu portefólio. Decompor este título em variantes leva-nos a reconhecer diferentes fases pelas quais passou e por que passam muitos candidatos que se entregam a um projeto formativo desta natureza.

Para o cumprir, é necessário sair dos saltos… quando a caminhada é longa, é recomendável que o calçado seja macio e confortável, para amortizar o andar. E que caminhada é profunda do que aquela que nos leva a revisitar a nossa própria vida, descrevendo-a e refletindo sobre ela, sobre quem somos, quem somos e quem gostaríamos de ser?

Para o cumprir, é necessário andar aos saltos… entre os afazeres rotineiros, onde os filhos assumem um papel central, entre os imprevistos e as necessidades. Por vezes, apetece saltar o tempo lá mais para a frente, mas ele não o permite. Ou saltar etapas, mas também não é possível.

Para o cumprir, mesmo perante as maiores dificuldades ou resistências dos candidatos durante o processo, a equipa procura responsabilizá-los e entregá-los a si mesmos, de forma a crescerem sobre si. Aí, não lhes resta alternativa sem ser enfrentar a montanha sem medo dos obstáculos que possam surgir. Que esta seja precisamente uma das mais importantes mensagens que daqui levam: a de que querendo, conseguem, mas para isso é preciso fazer acontecer. E, assim, os saltos qualitativos na vida alcançam-se: para um patamar superior de compromisso e de realização.

Isabel Moio – Técnica de ORVC

 

 

Ler+ Qualifica – 10 minutos a ler


“Eu quero aprender a ler e a escrever melhor” é a frase que ouço repetidamente no Centro Qualifica.

As vicissitudes da vida levaram muitos dos nossos candidatos para bem longe dos bancos da escola onde tiveram que aprender a crescer rapidamente.

Afastados do mundo dos livros e dos cadernos, é com muito entusiasmo que regressam à escola para adquirir os saberes que lhes proporcionarão mais segurança, mais conhecimento e uma melhor qualificação.

Tendo deixado a escola do primeiro ciclo ainda muito jovens, por motivos bem díspares, alguns candidatos retomam, no processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, a leitura já um pouco “adormecida”. Com persistência e muita força de vontade, é gratificante observar os progressos na leitura que deixou de ser um simples balbucio e hesitação para dar lugar a uma voz confiante que projeta palavras bem articuladas.

Estes “10 minutos a ler” proporcionam aos nossos candidatos momentos agradáveis de fruição estética, dando asas à imaginação e à criatividade.

Como disse Mário Quintana “Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.”

Gina Ribeiro – Formadora de Cultura, Língua e Comunicação

Webinar “Aprender e comunicar complexidade online com jogos e ambientes imersivos”


Foi interessante no dia 3 de maio de 2022 assistir ao Webinar “Aprender e comunicar complexidade online com jogos e ambientes imersivos” no Auditório da Escola Secundária de Pombal.

Este evento foi promovido pelos Centros Locais de Aprendizagem da Universidade Aberta em Ansião e em Cantanhede que estão a organizar com os Centros Qualifica da zona centro (Anadia, Ansião, Cantanhede, Pombal, Sertã e Vagos) um ciclo de conferências híbridas (presenciais com transmissão online) e em itinerância, intitulado “6 ao Centro”.

O Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas de Pombal acolheu a primeira sessão, que foi dinamizada pelo Professor Leonel Morgado, da Universidade Aberta.

O que ouvi nesta sessão faz-me concluir que os jogos ajudam a desenvolver a nossa agilidade. Facilmente, descarregamos do Play Store os jogos que quisermos. Nenhum traz manuais com as regras, pois subentende-se que qualquer jogador as aprende jogando. O lado menos bom disto é que se as pessoas não se controlarem, podem ficar viciadas. Outro aspeto que tenho reparado é que durante os jogos aparecem muitos anúncios e para poder continuar a jogar tenho de vê-los até ao final.

Foi interessante assistir a este Webinar porque me revi em algumas dos aspetos que foram ali falados.

Recordei as longas horas passadas com o “Global city”, um jogo de estratégia e de construção de cidades. Para ganhar pontos é preciso fazer crescer os prédios. Depois, os pontos podem ser utilizados para passar de nível, mas para o conseguir temos de cumprir algumas tarefas. ´muito intuitivo.

O “Top Eleven” é também um jogo de estratégia, mas de futebol. Aqui, também tenho de comprar jogadores e é definida, pelo próprio jogo, uma determinada hora para eu poder jogar com as duas equipas. Se pretender progredir mais rapidamente de nível posso aceder à “Loja” do jogo e adquirir “Tokens” para poder jogar na Liga, Liga dos Campeões e Taça.

O “War Machines” é um jogo de guerra, em que os jogadores podem ser de diferentes países. Quando entro no jogo costumo escolher a opção “Batalha” e com o meu canhão tenho de conseguir escapar sem morrer e destruir os canhões dos outros jogadores. Cada jogo tem um tempo limite para se conseguir vencer e cada vez que um disparo de outro jogador nos atinge, perdemos uma vida. Em função da posição em que se fica, recebe-se diamantes  e é com eles que conseguimos  novas vidas. Se não tivermos diamantes temos de aguardar cerca de uma hora para voltar a receber diamantes.

Paulo Santos – Candidato do processo RVCC de nível básico – B3

As Competências Digitais para a integração


Sob pena de podermos ficar um pouco desfasados da realidade que nos rodeia, torna-se necessário ter competências digitais e conhecer recursos como os CQCode que já são usados nas mais diversas situações como, por exemplo, nos restaurantes para acesso à ementa, em alguns supermercados, etc. Assim, no processo e RVCC, com a formadora Rita Silva, fiquei a saber o que é o QRCode e rapidamente, consegui criar dois QRCode, uma para o link do Centro Qualifica e outro para a reflexão da sobre a própria atividade.

Eulália Marques – Candidata do Processo de RVCC – Nível B3

Reflexão enquanto formadora de MV/MCT


A caminhada de formadora de Matemática para Vida (MV)/ Matemática, Ciências e Tecnologias (MCT) no processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) é complexa, mas gratificante. Cada candidato apresenta-se com o seu património ao nível de competências, edificadas no seu percurso escolar e profissional, concomitantemente, com a sua vida sociofamiliar. Recordo ainda as primeiras palavras da coordenadora quando cheguei ao Centro em finais de setembro: “O acolhimento é essencial para motivar para o processo”. Na prática, acolho os interesses de cada um, no enquadramento do Referencial de Competências-Chave, e em cada sessão vou transmitindo o meu gosto por esta área que considero tão cativante. Temos candidatos mais entusiasmados por dinâmicas tecnológicas e outros para as tradicionais e procuro ir respondendo a estas apetências. Partilho duas estratégias que considero terem sido muito positivas: o estudo de polígonos recorrendo ao Google Earth e frações numa análise do indicador do nível de combustível do automóvel.

Ana Maria Ribeira – Formadora de MV/MCT

“6 ao Centro”- Energia nuclear como passo intermédio para a transição energética.


A energia nuclear é a mais controversa de todas as fontes de energia. O sonho dos anos 1950 de uma energia limpa e barata transformou-se em pesadelo com os acidentes de Three Mile Island, Tchernobyl e Fukushima, que trouxeram de volta os fantasmas de Hiroshima e Nagasaki.

E no entanto a energia nuclear é a menos poluente de todas as fontes de energia, abaixo até da solar e da eólica, e com fatalidades que, tudo somado, estão ao nível daquelas e bem abaixo das mortes por doenças pulmonares originadas na energia fóssil.

Mas o bem maior da energia nuclear é a sua capacidade para agir como regulador dos fluxos renováveis, injetando ou retirando da rede elétrica o necessário para fazer encontrar a oferta e a procura de eletricidade.

Num mundo em que é cada vez mais evidente que o futuro terá de ser elétrico e movido a fontes renováveis, o nuclear pode jogar um papel fundamental no controle das intermitências dessas fontes e assim agir como tecnologia de transição entre o passado carbónico e um futuro limpo, até que as intermitências sejam resolvidas.

Se quer saber mais sobre estes desafios que a atualidade nos impõe, inscreva-se até 30 de maio através do link: https://forms.gle/H7ggEC8KDyw5MuEa9

Acompanhe este evento no Facebook através do link https://fb.me/e/1MXoD9kXX

Organização: Centros Locais de Aprendizagem da Universidade Aberta em Ansião e em Cantanhede e Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas de Anadia; com o apoio dos Centros Qualifica do Agrupamento de Escolas Lima-de-Faria (Cantanhede), Pombal, Sertã, da Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Vagos e da Escola Tecnológica e Profissional de Sicó.

Dúnia Palricas – CLA de Ansião

(novo) ponto de partida


São desconhecidos os rostos que entram pela porta do Centro Qualifica pela primeira vez. Contudo, com o decorrer do que aqui identificam como um “caminho de sucesso”, “degrau a degrau”, “concretizações” e “caminho de luz”, vão-se dando a conhecer através de laços que criam com a equipa, à semelhança do que ensinou “O Principezinho”.

No início, nem sempre se revela pacífico introduzir as horas de formação complementar nas suas agendas, harmonizando-as com as suas responsabilidades pessoais e familiares. Porém, a revisitação a conceitos e a conteúdos com os quais deixaram de contactar com o término do percurso escolar e o gosto pela aprendizagem acabam por deixar um travo a saudade, facilmente denunciado pelo brilho dos olhares e até pelas vozes trémulas de emoção.

O momento da certificação não representa o fim de nada, apenas um ponto de chegada. E um ponto de chegada é um excelente ponto de partida. É desta forma que a equipa lê o processo de RVCC dos quatro candidatos que a contactaram em virtude do trabalho em rede com o projeto municipal 3ESC (Educação, Saúde e Cidadania) e que obtiveram a certificação de nível básico nos dias 10 e 17 de fevereiro. A todos, desejamos que este ponto de partida alavanque novos começos, novos sonhos e novos projetos porque a vida é esse…

…milagre aos olhos de quem a tem

e a certeza de uma luta

para um dia ser mais do que ninguém

num mundo onde todos são alguém.

Isabel Moio – Técnica de ORVC