No dia 18 de dezembro de 2025, quatro candidatos de nível básico cumpriram o que há muito almejavam: o 9.º ano de escolaridade.
Ensina-nos o processo de RVCC que embora o fim seja o mesmo – a obtenção deste nível de qualificação –, o motivo que conduz a esse ponto difere de pessoa para pessoa. Se há quem procure o Centro Qualifica por uma questão de valorização pessoal, há quem veja neste processo uma forma de acompanhar os desafios atuais, em que as tecnologias estão impregnadas e são incontornáveis.
Acomodar as sessões de reconhecimento de competências e de formação complementar em agendas vivas em que os horários de trabalho são certos à entrada mas não à saída, em que situações familiares apelam à presença e ao cuidado e em que o trabalho a prestação de serviços é exigente e incerto foram algumas das dificuldades comuns sentidas pelos candidatos. No entanto, apesar dos ventos por vezes desfavoráveis, todos souberam com a mestria necessária ajustar as velas e gerir prioridades para alcançar a terra firme que a certificação lhes seria.
Durante a viagem em alto mar, ora calma ora conturbada, acondicionaram os conteúdos das várias áreas de competências-chave, integraram-nos nas suas estruturas mentais e seguraram com confiança e determinação o leme prosseguindo em busca de mais porque, independentemente do motivo de partida, todos os candidatos acabam o processo partilhando um sentimento comum: o gosto pela formação, cientes do que ainda podem e querem desenvolver.
Isabel Moio – Técnica de RVCC
Do 8 ao 80
No processo de RVCC todos têm lugar e oportunidade, independentemente dos percursos de vida, das escolhas e da idade. Exemplo disso foi a sessão de júri de certificação de nível básico do dia 27 de novembro de 2025 que, na mesma sala, juntou quem tinha 10 e 20 anos quando ocorreu a Revolução dos Cravos e quem nasceu 30 anos depois desse momento histórico de viragem.
E se há algo bonito neste processo é o respeito e a admiração entre os candidatos e o facto de evidenciarem o orgulho de “voltar à escola”, de percorrer os corredores entre os mais jovens e de se sentirem parte ativa neste contexto, como tantas vezes confidenciam à Equipa.
Por esse motivo, os ganhos vão muito para lá do que constroem durante as sessões de reconhecimento e do que desenvolvem na formação complementar. Há autoconhecimento e redescoberta. Prazeres arrumados nas gavetas do tempo são aqui aflorados e reinventam-se e projetos tímidos e embargados batem à porta do coração e da consciência dos candidatos, despertando-os para capacidades adormecidas ou anestesiadas na sombra de tradições e legados culturais.
Os portefólios viram metáforas de vidas de história e de histórias de vida: “Versos que sou” personifica quem, em rima cruzada, ajeita a caneta para reproduzir a ligação à terra, às gentes e aos costumes; “Vida em produção” reflete o trajeto de quem acumulou experiência profissional na indústria têxtil, acompanhando mudanças e exigências; “O último dia na gaiola” representa o valor de um certificado de qualificações nas mãos de quem nenhum tem e a esperança de, na sua posse, libertar-se de algumas tradições que (ainda) prendem, perpetuando tendências que urge combater e esbater.
Por trás da exigência da Equipa está o reconhecimento pelo esforço que cada candidato experiencia ao longo do processo de RVCC, mas é também objetivo que cada um leve deste percurso ferramentas e conhecimentos que lhes possam ser úteis para responder a cada novo projeto que abraçarem… porque um ponto de chegada é um excelente ponto de partida e é isso que se pretende que cada sessão de júri de certificação signifique.
Isabe Moio – Técnica de ORVC
Da parceria aos parceiros
O dia 17 de julho de 2025 representou para quatro candidatos de nível básico o término da etapa formativa que connosco realizaram. Não vieram bater à nossa porta. Fomos nós ao encontro deles quando, no âmbito de uma parceria entre o Centro Qualifica e a COPOMBAL – Cooperativa Agrícola de Pombal, procedemos à divulgação do processo de RVCC e do Acelerador Qualifica.
Quando convidados a virem ao Centro Qualifica para uma sessão de esclarecimento coletiva não recusaram. Não tinham nada a perder e o que se supunha ser uma sessão breve transformou-se, logo ali, numa conversa que facilmente se confundiria com o início do processo. Foi notório o entrosamento entre os candidatos, deixando antever que o grupo tinha requisitos estruturantes para funcionar bem. Não foi, porém, assim tão linear, pois se para uns estava clara a ideia de fazer a inscrição e “ver o que isto vai dar”, também houve quem considerou que não era o momento. No entanto, duas décadas de experiência facilmente colocaram a equipa do Centro na posição de quem vê para lá do objetivamente observável, de quem sente para lá do percetível e não desistiu de acreditar. Foi assim que o grupo aumentou em número de elementos, em coesão e força agregadora, sendo exemplo, inclusive, para outros candidatos.
Deixaram de ser apenas os formandos de distintas turmas de Aplicação de Produtos Fitofarmacêuticos da COPOMBAL para passarem a partilhar cronogramas no processo de RVCC, boa disposição, risos, experiências de vida e até alfaces, o que revelava a cumplicidade e os laços criados. Compareceram sempre, com pontualidade e compromisso inquebráveis, apresentando-se meia hora antes do início das sessões e aproveitaram esses momentos para desfrutar do bar da Escola. Das sessões, uns levaram ferramentas que poderão ajudá-los na reintegração profissional e outros conhecimentos de informática que irão certamente utilizar na sua vida pessoal, uma vez que aprender a trabalhar com o computador foi uma das principais motivações que os mobilizou. Mas, para eles, o processo de RVCC era muito mais do que o próprio processo. Era uma oportunidade de combater o isolamento social, de confraternizar e de sair da rotina. Tornaram-se verdadeiros parceiros.
Habituados a trabalhar a terra, a semear e a cuidar, tiveram sempre discernimento para filtrar o essencial e, com orgulho, colher os frutos que o processo de RVCC lhes deu. E, porque um ponto de chegada é um excelente ponto de partida, que o final desta etapa seja prenúncio de outras que breve iniciem.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Velhos? São os trapos!
As portas abertas do Centro Qualifica determinam a diversidade de perfis, de histórias e de vidas que por elas entram. Nem todos são jovens e empregados. Nem todos são de meia-idade empregados. Nem todos querem ficar acomodados à situação laboral em que se encontram. Também são reformadas algumas das pessoas que aceitam o desafio de voltar aos bancos da escola com um caderno na pasta, um coração aberto e as mãos calejadas da vida dispostas a agarrar novamente um lápis e uma caneta, mas também a aprender a explorar algumas das ferramentas informáticas a que um computador nos dá acesso.
Foi este o caso da M. e da N. que, cerca de sessenta anos depois de saírem da escola, trocaram a comodidade das noites na sua casa pelas cadeiras de uma sala que as levou a revisitar o 25 de Abril de 1974 – tendo-o vivenciado, sem na altura terem noção do que se estava a passar –, que as ajudou a suavizar a relação árida com os números quando tomaram consciência que a Matemática, se compreendida, ganha de facto sentido e significado, e que as ajudou a voltar a juntar as letras em exercícios de leitura e de escrita melhorando estas competências basilares na vida de qualquer pessoa.
Passados todos esses anos desde que a escola ficou para lá no tempo, poderá não lhes ter sido inicialmente fácil retomar hábitos enferrujados e desenvolver outros: para uma, entre as mondas do arroz e a gestão de um restaurante construído de raiz; para outra, no carrossel de aventuras criadas de restaurante em restaurante, ora por conta própria ora por conta de outrem. No entanto, tiveram em comum o exemplo de vida que foram para a Equipa, mas sobretudo para outros potenciais candidatos, que contaminaram com a sua energia e capacidade de adaptação e de superação. Afinal… Velhos? São os trapos!
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Superar desafios
A A. teve a coragem que muitos não têm: arrancar as suas raízes do seu país de origem, a Roménia, para as transplantar noutro, que a acolheu. Escolheu Portugal. Mas, para agarrar bem à terra, como gostam as plantas que querem crescer fortes e firmes, tem enfrentado as barreiras linguísticas que ainda sopram agitadas e lhe dificultam uma integração plena e mais participativa.
Frequentar um curso de Português Língua de Acolhimento poderia ajudá-la a desabrochar. Contudo, o horário de trabalho que pratica impede-a não apenas de passar mais tempo com os seus filhos, mas também de cumprir a assiduidade requerida por aquele curso.
Por isso, viu no processo de RVCC um rasgo de luz e um raio de sol que poderia aquecer-lhe as pétalas e amaciar os espinhos da língua portuguesa. Não havendo soluções ideais nem milagres, a Equipa procurou dar-lhe as condições de que necessitam as plantas corajosas para crescer com determinação. Assim, durante este percurso foi ganhando a autoconfiança que lhe permitiu melhorar as suas competências na escrita, na oralidade e na leitura, mas também na informática e no raciocínio matemático, ciente de que o caminho a percorrer na aprendizagem ao longo (e em todos os espaços) da vida não encerra com o término do processo de RVCC.
Aos poucos, a A. foi-se libertando da sua timidez inicial, mostrando a fibra de que também é feita de modo a poder partilhar, no dia 03 de abril de 2025, o resultado de um percurso de (auto)descoberta e de (auto)conhecimento que lhe foi exigente e desafiante, mas que a Equipa do Centro Qualifica também acredita que terá sido enriquecedor, construtivo e projetivo.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Passo a passo
I
Melhorar a proficiência no Português
Foi-lhe a força motriz para a inscrição
Mas foi muito mais aquilo que fez
Do primeiro momento à certificação
Nas dúvidas havia o Google Tradutor
Para converter a tradução em Mandarim
Porque aprender é também um ato de amor
Que tem começo mas não tem fim
II
Sempre de caderno aberto
E de lápis pronto na mão
Bebeu conteúdo de cada palestra, é certo
E, ao longo dos meses, de toda a sessão
Registou, fixou, cresceu
Como semente que germina com calma
E o que o processo com tempo lhe deu
Foi uma espiga dourada com alma
III
Foi no dia 11 de julho do ano corrente
Que aconteceu o júri de certificação
E cada história de vida de forma evidente
Apresentou a prova com saber e emoção
E porque um ponto de chegada
É um excelente ponto de partida
Que seja uma rampa esta etapa terminada
Para a aprendizagem ao longo da vida
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Recalculando… chegou ao seu destino!
− Na rotunda, siga em frente.
E foi assim que os dois candidatos cuja sessão de certificação ocorreu no dia 08 de maio de 2024 saíram da rotunda na qual andavam às voltas e tomaram a decisão: o processo de RVCC seria a saída que lhes daria acesso a projetos maiores.
Ambos têm na condução a sua força motriz profissional: um, ligado ao transporte de passageiros; outro, ao de mercadorias. Apesar das diferentes tipologias, tiveram de cumprir a regulamentação laboral no que respeita aos períodos de condução nos quais se incluíram os tempos de viagem pelas áreas de competências-chave, agregando valor de cada uma e com ela enriquecendo o seu portefólio.
− Recalculando…
Alternativas profissionais e formações paralelas convidaram a desvios, mas o foco estava no destino.
STOP.
Às vezes também é preciso (saber) parar, seja para rever o caminho ou simplesmente para descansar. Os dois candidatos não descuraram os repousos e, apesar de o processo de RVCC lhes ser importante, a família também não saiu dos seus horizontes. E, mesmo quando encostados à box por opção própria, na berma do objetivo de concluir o 9.º ano, a equipa continuou a contactá-los para saber quando reuniam condições para prosseguir viagem.
− Continuar pela estrada principal.
Formação complementar: recordar o Inglês, transformar a Matemática de cálculos mentais rápidos em linguagem escrita coerente, aprofundar a Cidadania, ler com calma para extrair mensagens e reproduzi-las fielmente sob a forma de resumos, explorar as potencialidades que a tecnologia coloca ao nosso dispor… Portefólio: história de vida, recordações, fio condutor, encaixe da formação complementar com atribuição de sentido e de valor. E, finalmente….
− Chegou ao seu destino.
Os dois candidatos são um exemplo de que fizeram e fazem história da sua vida, não se deixando simplesmente arrastar por ela. Agora, com mais habilitações escolares em sua posse, a equipa do Centro Qualifica deseja que, mesmo que optem por caminhos menos convencionais, não percam o norte e lembrem-se que o retrovisor é mais pequeno do que o para-brisas porque é sobretudo para a frente que devemos olhar.
Isaebl Moio – Técnica de ORVC
As estações da vida
A Natureza tem muito para nos ensinar. Se dedicarmos algum tempo a observá-la, podemos retirar lições valiosas. A ciência opta muitas vezes por dissecar os seus elementos para melhor a entender. Já a arte prefere contemplá-la para se inspirar e criar obras que imortalizam os seus criadores, por exemplo Vivaldi é ainda hoje recordado pela composição de quatro concertos, “As Quatro Estações”. Também a candidata que foi a júri de certificação no passado dia 07 de março de 2024, soube apreciar a beleza das estações do ano e reconhecer estes ciclos na sua própria história de vida.
Assim, o seu trajeto na concretização do processo RVCC seguiu o fluxo das estações, pois a própria caracterizou a fase da sua vida, em que iniciou esta caminhada, como sendo o inverno, por ter sido forçada pela sua condição de saúde a repensar os seus projetos.
Rapidamente se adaptou ao processo RVCC, manifestando um esforço e empenho exemplares. Dedicou-se a cada tarefa com a mesma energia que usa para cavar a terra, a fim de depositar as sementes de uma primavera à espreita.
Derretida a neve da dúvida e insegurança, foi visível o seu crescimento e florescimento nas várias áreas, principalmente em Competência Digital, sendo agora autónoma no envio de emails ou no processamento de texto. Se a fluência verbal nunca lhe faltou para contar a sua história, foi preciso algum treino em Cultura, Língua e Comunicação para converter em palavras essas experiências e acrescentar folhas novas ao seu portefólio.
Em Cidadania e Empregabilidade encontrou a sua praia, o início do verão, complementando os conhecimentos. Mas mesmo com o Sol no seu auge, C. nunca se sentou à sombra, empenhando-se para dominar as contas de Matemática, Ciências e Tecnologia.
Finalmente chegou o outono, isto é, a hora da colheita, podendo agora saborear os frutos da sua dedicação e planear novos caminhos para este novo ciclo a iniciar.
Mikael Mendes – Técncio de ORVC
Sobre rodas
A equipa do Centro Qualifica sabe que, seja por que motivo for, a vida de cada candidato que aqui vem bater à porta não correu sobre rodas. Vicissitudes pessoais, familiares ou profissionais empurraram para “um dia mais tarde” o prosseguimento dos estudos.
Paradoxalmente, e de forma literal, a vida da F. tem decorrido sobre rodas. Contudo, olhando ao sentido metafórico, também não o foi, mas sim uma roda-viva com mudanças, adaptações e reaprendizagens.
Desde o início do processo de RVCC, sem nunca aqui ter sido deixada em roda livre, a equipa apresentou-lhe cronogramas e propostas de atividades de reflexão. Não pretendendo este processo reinventar a roda, porque assenta no que de melhor cada candidato conhece – as suas experiências – foi-lhe sugerido andar à roda da sua própria vida, com um olhar reflexivo, e à roda de diferentes conteúdos dentro de cada área de competências-chave.
Como uma roda dentada, tudo o que construiu em formação complementar foi encaixado no seu portefólio, gerando um movimento fluido que, no final, surpreendeu a candidata. “Eu fiz isso tudo?!”, questionava por vezes, quando tomava consciência do resultado do seu trabalho. Nesta contínua construção, o que a fez ficar com a cabeça à roda foi, sobretudo, a Matemática e o Inglês, áreas em que não se sentiu tão confortável.
A equipa acredita que, para a F., este processo foi uma roda dos alimentos onde terá encontrado nutrientes essenciais que absorveu para concretizar novos projetos e no centro desta, onde se encontra a água, está a energia com que encara cada dia e cada desafio.
Isabel Moio – Técncia de ORVC
Do fazer acontecer à paz
Existem três tipos de pessoas: as que deixam acontecer, as que fazem acontecer e as que perguntam o que aconteceu. Acontecer começa com A, assim como o nome das duas candidatas que concluíram o processo de RVCC no dia 20 de dezembro de 2023. O A é a primeira letra do alfabeto, o que encima cada uma das candidatas na lista dos seus próprios projetos de vida. E um deles foi precisamente este: a realização deste processo. Seja por motivos de índole pessoal ou profissional, o denominador comum foi partilhado: aumentar o nível de qualificação escolar.
De atitude silenciosa e discreta ou destemida e aventureira, as duas candidatas souberam olhar para cada área de competências-chave como uma oportunidade de evoluir como ser humano e de aprender. Entre a vontade de arriscar ou, perante dúvidas e inseguranças maiores, de desistir, ambas não voltaram as costas aos desafios e, à sua maneira, dialogaram com os seus receios e enfrentaram-nos com a maturidade que um processo desta natureza requer. De memórias mais vívidas e precisas ou mais baças e diluídas, peça a peça foi-se construindo uma imagem unificadora de sentido e de significado: a história de vida.
No final do processo há também vários sentimentos comuns: o orgulho, a realização, a autoestima e a gratidão são alguns deles. As candidatas terminaram assim o processo de RVCC: com uma leveza interior que lhes transmite paz… palavra cuja última letra é a última do alfabeto, mas não do seu portefólio, pois a vida continua para lá desta etapa, para lá do Natal e para lá do virar de mais um ano.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
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