Das raízes aos horizontes


No passado dia 26 de março, cinco candidatos obtiveram a certificação do 9.º ano de escolaridade, através do Processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, resposta formativa que dignifica os seus percursos de vida, as suas escolhas e os seus caminhos.

Embora sem antecipar uma ligação racional entre os temas que apresentaram na sessão de júri de certificação, os cinco percursos entrelaçaram-se como capítulos de uma mesma narrativa humana, onde o passado se ancora na identidade e o futuro se projeta em autodescoberta.

O M. começou por descrever a ligação às suas raízes através da participação num rancho folclórico ao qual pertence há cerca de 50 anos, criado após o 25 de Abril de 1974, marco que trouxe a liberdade de associação e de fruição e criação cultural que, antes dessa data, não faziam parte do quotidiano.

O N. viajou do seu país de origem, a Rússia, há 26 anos, movido pela curiosidade e pela aventura. Conheceu um Portugal que se preparava para receber o Campeonato Europeu de Futebol, EURO2004, e não quis mais sair do país que tão bem o acolheu. Aqui constituiu a sua família e sedimentou a sua vida, trilhando agora um caminho de reconstrução da sua habitação que reafirma o seu enraizamento – projeto que apresentou na sua prova de júri –, numa procura incessante por melhores condições de vida, conforto, modernização e funcionalidade.

A T. deixou também as suas origens na Ucrânia e identificou em Portugal as condições em que pretendia prosseguir o seu rumo e nas quais tencionava cuidar dos seus filhos e educá-los. Integrou-se ativamente nas novas raízes, ampliou a sua rede relacional e envolveu-se no associativismo local aliando-se a um dos maiores clubes do concelho. O seu caminho evidencia que criar raízes vai além do espaço privado, pois estende-se ao envolvimento nas dinâmicas associativas, ao contributo para o coletivo e ao sentido de pertença.

A Y., vinda também da Ucrânia há praticamente tantos anos como T., escolheu Portugal para continuar a escrever a sua história de vida. Experimentou vários trabalhos e com nenhum se identificou. Um dia, algures em 2022, contactou com a cravação de pedras preciosas e na precisão da função, também ela se foi moldando e encontrando brilho e identidade no que sente como uma arte na qual o seu quotidiano se enraizou.

Por fim, o F. perspetivou novos horizontes que o seu gosto por viagens pretende ainda conhecer, tendo a sua apresentação aberto a perspetiva para o mundo e lembrado que crescer implica precisamente o que N., T. e Y. fizeram: partir, explorar o novo e transformar-se. Se as apresentações anteriores focaram a fixação e o sentimento de pertença, esta primou pela expansão e pela descoberta, pois não há crescimento sem raízes, nem futuro sem horizonte.

Foi assim que entre o chão que sustenta e o céu que chama, se desenhou um percurso simbólico: das raízes que definem aos caminhos (re)construídos, sem descurar os horizontes por explorar. São histórias de quem chegou, ficou, construiu, reinventou e continua a sonhar. Em comum? A passagem pelo Centro Qualifica vendo neste o ponto de partida para o percurso formativo que lhes fortaleceria a valorização pessoal e a obtenção de um comprovativo de escolaridade, pois foi aqui que cada um transformou a sua experiência de vida em reconhecimento formal, dando um novo valor às suas raízes e abrindo caminho a novos horizontes.

 

Isabel Moio – Técncica de ORVC