A depressão Kristin interrompeu de forma abrupta a normalidade das nossas rotinas. Na escola, nas casas e no quotidiano de todas as famílias, o dia amanheceu sem luz, sem água, com estradas cortadas e telhados no chão. Com impactos diferentes para cada um, houve, porém, uma consequência comum: a escola teve de fechar portas durante alguns dias.
No regresso, após a pausa letiva do final de semestre, os alunos trouxeram consigo histórias: alguns precisavam de contar o que viveram, outros partilharam apenas pequenos momentos destes dias inesperados.
Ouvir foi a palavra de ordem. Na sala de aula, a escuta é sempre o gesto mais acertado — e foi a partir dessa escuta que tudo recomeçou.
Das conversas nasceram risos, perguntas e imaginação:
- “O vento quando é forte leva-nos de pernas para o ar!”
- “O vento fala!”
- “Não, o vento ralha muito alto! Grita!”
- “E nós? Podemos gritar com o vento?”
- “E se ele fica furioso?”
A curiosidade infantil voltou a soprar forte, como quem diz que é tempo de reconstruir também por dentro.
Com essa energia contagiante, tratou-se de devolver cor aos dias. Porque é isso que a escola faz: transforma, acolhe, reinventa — devolve luz aos lugares onde o vento passou com demasiada força.
E assim, cheios de alegria, vivemos um novo “primeiro dia”.
E depois outro.
E mais outro.
Dias em que, já depois de conhecermos o vento da depressão Kristin, começámos a preparar os dias de Carnaval.
As cores, a música e as gargalhadas encheram novamente os espaços, serpenteando ao vento. As serpentinas e os confettis lembraram-nos aquilo que nunca muda: a escola é o nosso porto seguro, o lugar onde o coração acelera e onde a alegria sopra sempre mais alto do que qualquer tempestade.
JI de Assanha da Paz
A Educadora de Infância
Ana Maria Cabral