Desafios da Sociedade do Cansaço


A T. iniciou o processo de RVCC no dia 07 de junho de 2023 num ritmo que, a manter-se, faria com que demorasse muito mais tempo a concluir um percurso que a Carta de Qualidade dos Centros Qualifica aponta como devendo ter duração desejável compreendida entre 9 a 12 meses. Tal confirmar-se-ia porque a sua disponibilidade estava comprometida com os constrangimentos que se lhe atravessavam no caminho e porque primeiro esteve sempre o mais importante. De facto, as decisões que tomou ao longo da sua vida, desde nova, deram sempre primazia ao mais importante – como intitulou o seu portefólio – e, embora o processo de RVCC também o fosse, muitas vezes não esteve no topo das prioridades e competia à Equipa do Centro respeitar quando era a sua família, a saúde ou o bem-estar físico e mental a ocupar esse lugar.

No entanto, apesar de inicialmente se refugiar na flexibilidade característica deste processo, rápido tomou consciência de que não poderia continuar àquele ritmo se pretendia libertar-se desta etapa para permitir que outras entrassem na sua vida, de tal modo que o discurso inicial de “não posso…” transformou-se em “vou fazer o esforço e vou conseguir!”. E esta é precisamente uma das expressões presentes na voz da sociedade contemporânea, como Byung-Chul Han refere na sua obra “Sociedade do Cansaço”, a qual serviu de inspiração à apresentação do trabalho final da T., na sua sessão de júri de certificação, que decorreu no dia 29 de maio de 2025.

Fazendo um paralelismo com as suas experiências pessoais e profissionais, a candidata começou por descrever a sociedade do tédio, na qual se assiste a uma fragmentação da atenção, que decorre do multitasking e da constante pressão para o desempenho, o que conduz ao assédio laboral em muitas organizações que, de acordo com Byung-Chul Han, atinge proporções pandémicas nas organizações contemporâneas. No que concerne à sociedade do cansaço, salientou que as doenças do século XXI são inflamatórias e não infeciosas e decorrem do excesso de estímulos externos e da dificuldade em descansar com qualidade, o que se repercute em estados de burnout e de depressão. Quanto ao impacto da tecnologia, a candidata destacou a hiperconectividade a que estamos sujeitos devido
à utilização do telemóvel (que se até há relativamente pouco tempo apenas permitia estabelecer comunicação através de mensagens e telefonemas, hoje é um minicomputador que trazemos no bolso), a exposição a excesso de informação (surgindo muitas vezes Fake News para as quais é necessário estar-se particularmente atento) e o papel assumido pelas redes sociais, que muitas pessoas utilizam como meio de autopromoção. No que respeita à crise da negatividade, destacou a cultura do otimismo, que leva a que muitas pessoas sejam intolerantes à frustração (não dispondo de ferramentas emocionais que lhes permitam ultrapassar adversidades) e a perda de pensamento crítico (que necessita de reflexão, questionamento, hipóteses e dúvida para se desenvolver – o que não é possível numa sociedade “mecanizada” entre um somatório asfixiante de tarefas).

A obra de Byung-Chul Han não termina sem uma recomendação para vencer todos estes desafios que perpassam a sociedade contemporânea: a valorização do ócio que, embora muitas vezes confundido com preguiça, favorece a reflexão, a introspeção, a contemplação, o autoconhecimento e o significado existencial. Na realidade, embora hoje em dia seja uma tarefa hercúlea viver sem dispositivos tecnológicos e ferramentas digitais, é possível assumir uma atitude crítica e consciente, impondo por vezes limites a nós próprios, no sentido de desacelerar o ritmo em que tudo se executa para nos permitirmos também desconectarmos do digital para nos conectarmos ao “aqui e agora”.

Isabel Moio -Técnica de ORVC