O meu pai voava


Neste mês em que celebramos a união familiar, mas também sentimos a ausência de quem já partiu, sugerimos a obra O Meu Pai Voava (2024), de Tânia Ganho. Trata-se de um relato intimista, escrito na primeira pessoa, construído a partir de pequenas crónicas dedicadas ao pai da autora.

As crónicas podem ser lidas de forma independente, sem que se perca o sentido global da obra. Este livro é, acima de tudo, um tributo: “Escrevo para recuperar o fulgor com que ele viveu”, afirma Tânia Ganho, escritora e tradutora, natural de Coimbra, filha deste médico cuja vida nos soa tão familiar.

É uma obra comovente, capaz de despertar memórias e emoções, transformando um momento particularmente difícil — a perda definitiva de alguém amado — numa homenagem literária belíssima. A autora reflete sobre o tempo da  “orfandade na adultez”: “Era como se, deixando de ser a menina do papá, fosse obrigada a crescer, a ser adulta, e eu não queria ser adulta. Já o era há muitos anos, e já o perdera há muito tempo, mas a finitude do caixão, do corpo frio, de mãos entrelaçadas no peito, fez-me sentir que uma parte de mim morrera. A menina.”

O pai de Tânia Ganho não voava, mas sonhava voar. Queria ser piloto. Nascido numa aldeia, recordava com humor o dia em que, ainda criança, correu para fora da sala de aula ao ouvir um som no céu, fascinado pelo avião que passava. Esse encanto levou-o ao aeromodelismo, onde se destacou como campeão nacional e ibérico, chegando a integrar equipas com Júlio Isidro e outros grandes nomes da modalidade. Torneiro mecânico, perfeccionista, dedicou-se também à fotografia, transformando a casa de banho no seu estúdio de revelação.

Entre as suas memórias felizes, destaca-se a visita diária à Expo 98, aproveitando o passe oferecido pela família — talvez um dos últimos grandes prazeres antes da doença de Parkinson, que durante nove anos lhe roubou lentamente a vitalidade: “Deixou de sorrir com os olhos.” Até que, por fim, voou para outra dimensão.

O Meu Pai Voava é um pequeno livro cheio de crónicas belíssimas, enriquecido com fotografias, que nos fala de amor, perda e coragem. Uma obra que transforma dor em arte e que merece ser lida neste Natal.

Sugerido por A. Sofia Cardoso