Pés de Barro, de Nuno Duarte, é um romance imperdível! Não por ter sido Prémio Leya – embora seja já um bom critério para a leitura- mas porque nos leva numa viagem até à década de 60 e à construção da Ponte 25 de Abril. Conduzidos pelo trabalhador Vítor Tirapicos e por todas as personagens à sua volta, ficamos a saber tanto sobre a construção da ponte e sobre aquela época! Pela voz das personagens, indignamo-nos com a guerra colonial que subtraía filhos aos pais, ficamos a saber do desastre do cais do Sodré em 1963 ( e vamos ao google pesquisar!), lamentamos a morte de trabalhadores depois de vermos o seu árduo esforço, qual “epopeia da pedra” saramaguiana, para erguer os pilares da ponte. Todas as ações, claro, sempre sob um contexto vigilante e repressivo, dado a conhecer ao leitor de forma tão verosímil, como se estivéssemos naquela época e a vivêssemos ao lado de cada personagem. Curiosamente, somos surpreendidos pelo contraste entre o surpreendente progresso técnico patente na construção da maior ponte suspensa da Europa, à época, e a pobreza sistémica da população portuguesa, aqui representada pelo povo de Alcântara.
Todas as personagens nos parecem genuínas, representativas do modo de sentir e de falar tão tipicamente português. Seguimos com expetativa Vítor Tirapicos, preso por ter roubado batatas, e que, saído da prisão, aprende as primeiras letras enquanto trabalha na ponte. E que dizer de Dália, uma personagem riquíssima, tão bem construída que a coloquei ao lado de Blimunda, de Saramago?
Neste livro, todas as pequenas grandes histórias se entrecruzam habilmente numa narrativa fluida, bem escrita e cheia de vida, que nos agarra até ao fim.
C. Costa