No dia 23 de julho de 2024 realizou-se a sessão de júri de certificação de duas candidatas de Nível Básico que almejavam, por diferentes motivos, alcançar o 9.º ano de escolaridade por via do reconhecimento das suas competências pessoais, sociais, formativas e profissionais por verem neste a única possibilidade de conseguirem conciliar esse projeto com os seus múltiplos compromissos familiares e profissionais.
Com frequência diz-se, e ouve-se, que é mais o que nos une do que aquilo que nos separa. Começam por ter em comum o facto de terem nascido em países distantes de Portugal, mas com afinidades linguísticas e, por diferentes condicionantes, ambas terem visto em Pombal uma oportunidade de renascimento.
Ambas estão hoje “na ternura dos 40” e em crianças viram a escola afastar-se dos seus horizontes: ora por falta de suporte de retaguarda, ora por terem sido “atiradas” ao mundo do trabalho para responder às necessidades das respetivas conjunturas familiares.
Se para a A. o processo de RVCC foi como abrir uma gaveta onde durante 30 anos guardou o sonho de concluir o 9.º ano, a E. pretendia obter um comprovativo – que não tinha – das suas qualificações escolares, mas consolidar conhecimentos e readquirir hábitos de leitura e de escrita, relegada para segundo plano na azáfama de uma rotina que imprime outras prioridades.
Já no processo, que ambas gostariam de ter concluído mais rapidamente, a dificuldade mais transparente foi a gestão de tempo devido aos seus horários de trabalho incertos, flutuantes e exigentes, o que levou a que a equipa do Centro Qualifica intensificasse a sua abertura e disponibilidade para propor datas e horários que pudessem ser incluídos nas agendas preenchidas das candidatas.
O dia da sessão de júri de certificação é sempre, para os candidatos que realizam processo de RVCC, uma conquista cujo significado apenas é verdadeiramente sentido por eles. Este dia não foi exceção para estas, que denunciaram nos olhos lacrimejantes e nas iguarias angolanas preparadas com cuidado e carinho o valor que tamanho esforço lhes representou.
Sim, mesmo com antecedentes distintos, histórias de vida que nunca se haviam cruzado antes e motivações diferentes… é muito mais o que (nos) une do que aquilo que (nos) separa.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Portefólio: a (re)descoberta de si por si
No dia 26 de abril de 2018 decorreu, no Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas de Pombal, uma sessão de júri de certificação de quatro candidatos que, mediante o desenvolvimento e construção do seu portefólio reflexivo de aprendizagens e uma apresentação em PowerPoint, obtiveram equivalência ao 9.º ano de escolaridade.
Mais do que uma mera coleção de páginas de história(s) de vida, um portefólio é o espelho de mapas de aprendizagens, de compromissos, de competências e de saberes adquiridos no palco da vida, nos mais diversos cenários, partilhados com diferentes intervenientes e protagonistas.
Numas ocasiões, somos o ator principal; noutras, optamos por ser meros observadores. No entanto, em ambas as situações é possível captar novos registos e novas formas de “ler o mundo” (como diria Paulo Freire, um dos mais notáveis pedagogos), incorporando-as na nossa maneira de Ser, de Estar, de Fazer e de Conviver com os Outros. Em suma, nos quatro pilares da Educação que (também) somos.
Independentemente do papel por nós assumido, somos sempre o autor da nossa História e, por isso, não devemos permitir que outras pessoas peguem na nossa caneta. Apenas a mão de cada autor é conhecedora da cor sua tinta (por vezes, uma cor que não existe no espetro da unidade, mas que reinventamos para colorir, de forma única, um caminho que também o é), dos seus rascunhos e da forma como, livremente, materializa a capa do seu livro e sequencializa o conteúdo das suas páginas.
O portefólio é também uma forma de nos (re)conhecermos, de aprendermos e de nos construirmos connosco e com os que nos rodeiam. Transforma-se no bilhete e, simultaneamente, no meio de transporte que proporciona uma das mais surpreendentes viagens pelo mundo do autoconhecimento, favorecendo a (re)descoberta de si por si.
Porque o melhor da vida acontece quando deixamos de esperar e fazemos acontecer, que o portefólio de cada candidato que acompanhamos em processo (inacabado) de reconhecimento, validação e certificação de competências permita sempre, de alguma forma, fazer a vida acontecer, sendo mais do que uma mera coleção ou somatório de páginas: um fiel espelho de quem se é, como e porquê.
Isabel Moio – Técnica de ORVC