A Grécia Antiga é profícua em reflexões filosóficas e contos mitológicos que continuam a influenciar a forma atual de pensar. Um dos mitos muito conhecidos é a história de Narciso, que relata a vida de um jovem extremamente belo e arrogante, que acaba por se apaixonar pelo seu próprio reflexo, morrendo à fome e sede por não ser capaz de se afastar da sua própria imagem. Esta narrativa alerta-nos para os perigos de sermos, como a flor narciso, demasiado focados no nosso próprio umbigo, sendo preciso levantar a cabeça e observar o mundo que nos rodeia para agir.
Foi imbuído deste espírito de missão que D. fez a sua apresentação para a prova de júri de certificação de nível secundário, no dia 21 de março de 2024, inspirado pelo livro “A Era do Nós: Propostas para uma Democracia do Bem Comum” de João Ferro Rodrigues. Este é um candidato que está ligado a movimentos associativos na área do desporto e, enquanto pai, reconhece a importância de transmitir aos seus filhos a responsabilidade de participar ativamente na construção do bem comum.
Na exposição teve o cuidado de defender o equilíbrio entre o individualismo e o coletivismo, fazendo o paralelismo com a sua experiência como treinador, em que estimula o desenvolvimento pleno das particularidades de cada jogador, potenciando a cooperação e o trabalho de equipa para o alcance de objetivos de grupo.
Terminou com a exploração de ações concretas a tomar para a promoção do bem comum, assentes num envolvimento efetivo na comunidade.
Este foi o momento de encerramento de mais uma etapa na vida de D., com uma clara vitória, que lhe permitiu levar para casa a taça, ou melhor, o certificado de 12.º ano. Mas esta foi apenas a fase de eliminatórias regionais que o irão apurar ao campeonato nacional, isto é, ao prosseguimento de estudos para uma Licenciatura na sua área profissional, para que possa conquistar o título por si desejado.
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
Equação do sucesso: variáveis e equilíbrio
As portas abertas do Centro Qualifica não nos deixam antever quem por elas entrará, estando a equipa sempre disponível para acolher quem aqui veja um rasgo de luz ou uma clareira de esperança. E não… nem sempre são pessoas com baixas qualificações que aqui se dirigem. E a S. é disso exemplo. Vinda de um país frio e de céu cinzento, a Rússia, onde se formou em Física – vertente de ensino, procurou em Portugal um equilíbrio térmico que lhe descobrisse o céu para melhores oportunidades de vida e estabilidade.
Não lhe sendo possível obter a equivalência aos seus estudos de origem, viu no processo de RVCC a oportunidade de cumprir um desígnio de vida: a obtenção de um comprovativo das suas qualificações escolares. Contudo, na equação do equilíbrio químico da sua vida pessoal e profissional teve de combinar de forma habilidosa diversas variáveis de modo a harmonizar o processo de RVCC com os seus horários de trabalho e os seus compromissos familiares.
De andar quase mecânico, e sempre com elevada energia cinética, soube com mestria gerir tempo e velocidade: ora acelerava em casa com a realização autónoma de algumas atividades, ora abrandava quando, no seu contexto profissional, as forças e os movimentos dos seus horários eram contrários aos que inicialmente lhe eram comunicados pelos seus superiores.
O domínio do Português foi o principal obstáculo que encontrou, pois foram vários os momentos em que o interruptor do vocabulário se desligou, cortando-lhe momentaneamente a corrente de que necessitava para que o circuito funcionasse sem percalços. Apesar disso, inspirada na mensagem do livro “Um mundo infestado de demónios”, de Carl Sagan, conseguiu defender o seu trabalho final, em que aliou as suas principais áreas de interesse – Ciência e Psicologia – ao comércio, em que trabalha. Acreditamos que o balanço energético do que a S. realizou no processo de RVCC permite-lhe levar daqui um rendimento positivo, transformado em ganhos em todas as áreas de competências-chave. E, embora o deslocamento entre os dois pontos do processo – a primeira sessão e o momento do júri de certificação, realizada no dia 7 de março de 2024 – não tenha sido retilíneo, também estamos confiantes de que a distância percorrida nesta trajetória contribuiu para que o espetro eletromagnético dos conhecimentos da S. saia daqui mais fortalecido.
Isabel Moio – Técnica de ORVC