O Origami tem etimologia japonesa e significa dobrar (ori) papel (kami). Foi com recurso a esta técnica milenar que os formandos do processo de RVCC de nível básico foram explorando, a distância e presencialmente, alguns conceitos de geometria. O desafio era procurar materializar os sentimentos despertados pela leitura das obras “O velho que lia romances de amor” de luís Sepúlveda, “A maior flor do mundo” de José Saramago, “Caldo de pedra” de Teófilo Braga através de construções de papel elementares.
Numa transversalidade dos saberes, os candidatos foram orientados pelos formadores das áreas de matemática para a vida e de linguagem e comunicação para verbalizarem emoções despertadas pela leitura e para a sua representação rigorosa bi e tri dimensional através da arte da dobragem do papel.
Cristina Costa – Coordenadora do Centro Qualifica
A vida em metáforas
Cada pessoa que chega ao nosso Centro traz o novelo de uma História de Vida que, connosco, vai desfiando sessão após sessão. Com o desenrolar do Processo de RVCC, começamos a conhecer alguns dos palcos das suas vidas, nos quais foram o ator principal no desenvolvimento de competências. E é na sequência da díade equipa-candidato que vamos compreendendo como cada vida pode resumir-se numa metáfora.
No dia 02 de julho, com o respeito pelas regras às quais a situação pandémica atual nos obriga, decorreu uma sessão de júri de certificação presencial, que concedeu a um candidato o nível B2 e a duas candidatas o nível B3. Durante o processo houve um denominador comum a estes três candidatos: a transição do regime presencial para uma modalidade à distância. Foi, para todos, um dos mais significativos desafios, pois depararam-se com a necessidade de reajustar os seus tempos e os seus modos de vida a esta nova condição.
A todos, no final desta caminhada, foi colocada a questão: “se tivesse de resumir o processo numa imagem, qual seria?”. O candidato do Nível B2 disse-nos, com um sorriso, que se revê no espelho de um carro em andamento porque ao mesmo tempo que teve de olhar para o passado e para as suas experiências de vida, continua em movimento sem perder o sentido da sua viagem e do caminho que pretende seguir. A uma das candidatas o processo faz lembrar um livro porque construir o seu portefólio foi como viajar pela sua própria história de vida, virando uma página todos os dias. A outra candidata associou o processo a uma montanha. De facto, para chegar ao topo, sentiu necessidade de parar algumas vezes para respirar fundo e tomar fôlego. Os conhecimentos de TIC funcionaram como uma corda à qual se agarrou para não deixar resvalar esta oportunidade e continuar a escalada.
Acreditamos, como Equipa, que deste momento em diante ainda há muitas viagens e paisagens em movimento, muitas páginas para escrever e por mais agrestes que possam ser algumas montanhas, há sempre azul (luz) e verde (esperança) em redor e estas cores devem prevalecer, independentemente da altitude e das características morfológicas das cordilheiras da vida de cada candidato.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
“O carteiro” de Pablo de Neruda e a descoberta da força das palavras
Descobri a obra “O Carteiro de Pablo de Neruda” no processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências.
No exílio, Pablo de Neruda estava ligado à sua terra natal através das palavras recebia a cada semana dezenas de cartas que “choviam” de todo lado. As eternas apaixonadas pelo charmoso escritor, apesar de estar casado, enviavam mensagens a que ele educadamente correspondia, e elegantemente respondia. Como é natural, dava mais importância a umas do que a outras. Havia uma carta que ele esperava receber com muita expetativa. Da Suécia. Novidades sobre a quem iriam atribuir o prémio Nobel. Naquele ano, a concorrência era forte. No íntimo, Pablo sabia a chance que tinha perante os seus pares.
Quem fazia “a ponte” entre os correios e a residência, era o carteiro, Mário. Este respondera a um anúncio de pedido de funcionário por parte do telegrafista. Apesar de ser um trabalho mal remunerado, e de só ter um destinatário, um único, mesmo assim o rapaz aceitou de bom grado. Inconformado com a vida que a tradição da aldeia impunha, a pesca e pelo pai que achava que aquela por ter sido a vida dele teria de ser a vida do rapaz, decidiu dar a pedrada no charco e contrariar a máxima de que filho de peixe sabe nadar. Rompeu com a tradição desejada e decidiu abrir novos horizontes. Encontrou a “alpondra” perfeita, o poeta. Com o tempo, com astúcia e inteligência, conseguiu “aproximar-se” de Pablo. Este começou por desconsiderá-lo, mas depressa percebeu o gosto que o carteiro tinha pela leitura e pela poesia. Tinham algo em comum. Foi nesta interação que uma amizade começou a surgir. Mário começou a perceber a força das palavras e a deixar que o seu mestre influenciasse e moldasse a sua forma de pensar.
A poesia e a leitura abriram-lhe as “portas do mundo”. Na sua investida para tentar conquistar a bela Beatriz, algumas das frases apaixonadas que lhe dirigiu foram: “o teu sorriso espalha-se pelo teu rosto como uma borboleta”, “ o teu sorriso é como uma rosa”, “uma lança descoberta, é o bater das águas”, “o teu sorriso é uma onda prateada repentina”.
Mário, o carteiro, é um exemplo vivo de que a beleza interior, a riqueza de carácter e a sabedoria acumuladas, não se aprende nas escolas. Os títulos e cursos académicos, bem como novas descobertas científicas são muito importantes nas sociedades modernas. Sem isso, o sistema entrava em colapso. Mas qualquer um de nós, se por alguma razão ficou arredado desse reconhecimento dado pela sociedade, não fica arredado de “beber” da formação e crescimento contínuos que a vida lhe oferece. Mais, pode ser para os outros uma “fonte de água refrescante” sempre disponível para quem “de si quiser beber.
João Domigues – Candidato do processo de RVCC de nível secundário
“O velho que lia romances de Amor” Luís Sepúlveda – Ecos
No processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, tive ocasião de ver o filme “O velho que lia romances de amor”, baseado na obra literária do autor Luís Sepúlveda. De origem chilena, este escritor ficará para sempre ligado a Portugal por causa do motivo da sua morte. Diagnosticado em fevereiro 2020 com covid 19, viria infelizmente a falecer em Gijón, Espanha, depois da sua última aparição em público ter sido na Póvoa de Varzim num encontro literário.
O romance “O velho que lia romances de amor” foi dedicado a um amigo de nome Chico Mendes, herói da defesa da floresta da Amazónia. O velho é o autor principal e um vasto conhecedor do meio. Dotado de uma visão e sabedoria destacáveis, consegue manter manter boas relações com todos, inclusive com os que não gostam dele, sem usar a força, com boa educação e boas maneiras, sem levantar o tom, sem ser arrogante. Faz lembrar um ditado antigo: “A língua suave pode quebrar um osso”. Vive uma relação de forças com o prefeito (representando o Estado), que usa a lei para se impor e proteger com um notório abuso de autoridade. Um dia, um dos gringos, ou estrangeiros que se instalam nesta terra com o objetivo de explorar as suas riquezas naturais, estupidamente ataca os filhotes de uma onça, sendo depois morto por ela. A fúria invade o animal que se vinga em todo ser vivo que encontra com sangue humano a circular dentro das veias. Depois do aparecimento de vários cadáveres, Bolivar decide que é hora de parar aquela carnificina e sair numa expedição para capturar o perigoso animal. Esta não corre bem por causa da constante insistência do incompetente prefeito em comandar as operações. Plano seguinte, com o qual todos concordam, deixar Bolivar sozinho até encontrar o animal. Corajosamente, enfrenta-o, levando a melhor neste duelo, sem demonstrar no entanto qualquer sentimento de vingança ou ódio. Usa a força e a inteligência necessárias para se sobrepor ao instinto feroz do felino, fazendo-o porém com muita dignidade, respeito e elevação. Até no momento final em que “enterra” o animal, deixa transparecer quão condoído se sente.
À medida que a história se desenrola a força das palavras, o desejo de saber mais a busca por literatura são uma constante no dia a dia do velho. Com notória dificuldade em soletrar as palavras, não desiste. O seu lado romântico e encantador não passam despercebidos, de modo particular junto das mulheres. Foi presenteado de forma especial depois do ato heróico em que arrisca a vida em prol dos outros.
Há uma frase um pouco “gasta”, mas muito assertiva: “Leitura é cultura”. Ler faz-nos pensar, sonhar, emocionar, refletir, acreditar, acumular conhecimentos e passar a olhar o mundo com outros olhos. Também acalma, dando de alguma forma uma paz de espírito que se transmite e silenciosamente dá sinais a quem nos observa e rodeia de que não somos ameaça. Transmite segurança. Chegados aqui, as bases para estabelecer pontes de amizade e confiança mútuas estão lançadas.
Com a leitura alimentamos o espírito. Isso torna-nos indivíduos mais simples, mais acessíveis, mais altruístas e por consequência menos gananciosos. No fundo, desmaterializamos um pouco os nossos desejos, contentando-nos com o básico para viver. Sentimo-nos bem connosco próprios e com toda certeza, se eu estiver de bem com a vida, de bem comigo, estou muito mais disponível para partilhar. Além disso, se tiver o ouvido atento, a palavra e o tom certos no momento certo, atrairei pessoas de toda estirpe. Sentir-me-ei útil e desejado mas sem qualquer tipo de presunção, ou arrogância intelectual. A leitura torna sonhos reais. Parece milagre….
João Domingues – Candidato do processo de RVCC de nível secundário
Partilha de práticas – Educação e Formação de Adultos em Tempos de Confinamentos
A partilha da experiência do nosso Centro Qualifica sobre o caminho de descoberta para chegar junto dos nossos candidatos em tempo de confinamento, as estratégias para manter o Centro aberto mesmo que de portas fechadas numa lógicca de confiança e de relação.
Educação e Formação de Adultos em Tempos de confinamentos – Conferência Digital
Na próxima segunda-feira, dia 22 de junho, às 15:00 horas realiza-se a Conferência “EFA em Tempos de confinamentos” promovida pela APEFA (Associação Portuguesa de Educação e Formação de Adultos em Portugal).
O Centro Qualifica do AE Pombal junta-se ao Centro Qualifica do NERBA e da APEFA bem como à Câmara Municipal de Aljustrel para a partilha dos constrangimentos na continuidade das suas atividades em tempos de confinamento e das lições a seguir e das metodologias e estratégias a adotar em momento pós-Covid 19.
A Conferência tem moderação de Jorge Sarmento Morais e conta com a presença de personalidades como o Secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa, dos dirigentes do POCH, Joaquim Bernardo, do IEFP, António Leite e da ANQEP, Filipa de Jesus.
Junte-se a nós! Inscreva-se!
Cristina Costa – Coordenadora
Retoma das sessões presenciais de júri de certificação
No passado dia 9 de junho de 2020, o Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas de Pombal retomou a realização de sessões presenciais de júri de certificação, respeitando as orientações da Direção Geral de Saúde relativamente à situação de pandemia COVID-19.
Com alguma ansiedade, nervosismo e emoção, os candidatos Fernando Carvalho e Maria de Lourdes Carvalho tiveram a oportunidade de verem certificadas as competências que “a escola da vida” lhe tinha permitido adquirir. No entanto, entendemos que para estes dois candidatos, o Processo de RVCC foi para além do reconhecimento dos seus saberes, pois permitiu-lhes enriquecer os seus conhecimentos, nomeadamente nas áreas de Informática e de Matemática para a Vida e ajudou-os a aperfeiçoar as suas competências de língua portuguesa.
Muitos parabéns aos dois candidatos e fazemos votos para que a certificação do 3ºciclo do ensino básico permita-lhes alcançar um dos seus principais objetivos do momento: reingressar no mercado de trabalho, nunca nos esquecendo de que “a vida é uma verdadeira batalha e só quem continua a lutar sairá vencedor.”
Patrícia Amado – Técnica de ORVC
Certificação de nível secundário a Distância
Nos dias 21 e 28 de maio de 2020 realizaram-se as primeiras sessões de júri de certificação à distância, com recurso à plaforma Teams.
Três candidatas viram o seu percurso de vida valorizado, alcançando assim a certificação de nível secundário. Foram candidatas com experiências de vida muito distintas mas, a partir do momento que iniciaram o Processo RVCC no nosso Centro Qualifica, manifestaram o mesmo denominador comum: realizar um sonho que a vida lhes tinha “roubado”.
Durante os oito meses de sessões de reconhecimento de competências de formação complementar interna as candidatas revelaram muito empenho, esforço e dedicação na construção dos seus portefólios, valendo-lhes a sua resiliência para conseguirem ultrapassar os obstáculos que foram encontrando pelo caminho. Porém, como alguém um dia referiu, “as pessoas vencedoras não são aquelas que nunca falham, mas sim aquelas que nunca desistem” e estas candidatas foram o verdadeiro exemplo disso.
Parabéns à Susana Paiva, à Filipa Oliveira e à Fátima Gameiro pela certificação de nível secundário e fazemos votos para que continuem a apostar na sua qualificação pois, como refere Albert Shweitzer, “ aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende”.
Patrícia Amado – Técnica de ORVC
Revisitar a obra de Orwell “1984” à luz do Referencial de nível secundário de Educação de Adultos
No dia 21 de janeiro 2020, demos início ao nosso projeto: Leituras com Arte – Ler + Qualifica com a exibição do filme 1984, baseado no romance de George Orwell (1949). Numa articulação com o Referencial de Competências-chave de nível secundário, pretendeu-se, proporcionar aos adultos em formação no nosso Agrupamento a aventura do encontro com os livros. Partilhamos hoje um dos resultados desta iniciativa que muito nos enche de orgulho. Propomos-lhe o revisitar da obra de Orwell pelos olhos do candidato do processo de RVCC, Jorge Ferreira.
“O romance “1984”, de George Orwell, publicado em 1949, do qual resultou um filme, marcou a minha adolescência a par das obras de Huxley e Kafka. Nele funde-se o regime ficção e a realidade dos totalitarismos europeus da altura.
Na obra, ninguém consegue escapar ao olhar constante do Big Brother, cuja imagem é difundida por toda a parte. Em Portugal, a figura de Salazar, tal como o Big Brother é o Grande Salvador da Pátria, uma espécie de figura epopeica, o único capaz de solucionar os problemas da nação fortemente hierarquizada, impondo desta forma, o culto ao líder.
Os regimes totalitários partilham um elemento comum na sua origem: uma grande crise económica. Nestes cenários caóticos, as figuras autoritárias são eleitas e acumulam todos os poderes, como única solução radical. O populismo ganha força, através de fomentação de ódios a determinadas categorias sociais e de um complexo sistema de propaganda, pensado para controlar a capacidade de questionamento. É anulada a liberdade de expressão, através de mecanismos de censura, a vida pública sofre uma enorme repressão e o acesso à educação fica reservado sobretudo às elites.
Em Portugal, entre 1945 e 1969, a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), foi responsável por uma enorme repressão individual. Na obra de Orwell, podemos compará-la com a Polícia do Pensamento, perseguindo pessoas por denúncias, recorrendo à tortura como meio de obter informações, sendo também responsável por diversos assassinatos.
Tal como na obra de Orwell, em Portugal, a União Nacional, era o partido único, uma vez que a oposição era fortemente perseguida e reprimida. Este partido era também responsável por uma retórica violenta contra supostos “inimigos internos” que contribuem para a degradação moral da nação. Através da censura, tanto na esfera cultural, como no ensino, à semelhança da obra de Orwell, o Ministério encarregava-se de censurar a história, reescrevendo constantemente os factos do passado. Também o Estado Novo atribuía uma enorme importância à propaganda, criando em 26 de outubro de 1933, o SPN – Secretariado da Propaganda Nacional, com o intuito da divulgação do ideário nacionalista a na padronização da cultura e das artes do regime.”
Jorge Ferreira – Candidato do Processo RVCC de nível secundário
Admiro pessoas que passam pela vida procurando fazer o bem. Já no processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, numa sessão de Cultura, Língua e Comunicação, tive ocasião de conhecer Aristides de Sousa Mendes através da obra “Aristides de Sousa Mendes – Memórias de um neto” de António Moncada Sousa Mendes.
Nascido a 19 de julho 1885, em Cabanas de Viriato, pertencia a uma família católica da Beira Alta, mudando-se para Lisboa em 1907, após a licenciatura em Direito pela Universidade de Coimbra. Enveredou pela carreira diplomática, ocupou diversas delegações consulares pelo mundo, como Zanzibar, Guiana, Brasil, Estados Unidos da América e Espanha.
No início da II Guerra Mundial, Salazar foi nomeado cônsul em Bordéus, França. Foi o início da história mais importante para ele. Em plena Segunda Guerra Mundial, à medida que recrudescia a ameaça e a perseguição de milhares de Judeus por toda a Europa, milhares de refugiados judeus, em Bordéus, reuniam-se em frente aos consulados de Portugal e de Espanha, em busca de vistos para escapar a uma morte certa. Espanha negou os vistos aos refugiados judeus e a única esperança residia no consulado português.
A“Circular 14”, emitida pelo governo português,então chefiada por António de Oliveira Salazar, ordenava a suspensão de vistos aos refugiados, explicitamente Judeus e Russos, mas Aristides tomou uma decisão: iria emitir vistos sem distinção de raça ou religião.
Aristides Sousa Mendes teve a coragem, de assumir, sofrendo as consequências políticas, a defesa intransigente dos direitos de milhares de refugiados judeus. Em vez de ser premiado foi demitido da função de cônsul despromovido à categoria inferior, perdeu o direito de exercer advocacia. Foi obrigado a vender tudo para pagar as dívidas e sobreviver com dificuldade com sua mulher e os seus 12 filhos, nunca lhe sendo reconhecida bondade dos seus atos em vida, morreu a 03 de abril de 1954.
Não sei se eu teria sido capaz de ter o mesmo gesto, mas sei que numa ocasião em que me vir confrontada com uma decisão difícil a tomar, irei pensar na coragem deste homem. Devemos muito a grandes homens como este que não olharam ao que iriam perder para salvar vidas humanas.
Susana Paiva – Candidata do Processo de RVCC de nível secundário