O dia 17 de julho de 2025 representou para quatro candidatos de nível básico o término da etapa formativa que connosco realizaram. Não vieram bater à nossa porta. Fomos nós ao encontro deles quando, no âmbito de uma parceria entre o Centro Qualifica e a COPOMBAL – Cooperativa Agrícola de Pombal, procedemos à divulgação do processo de RVCC e do Acelerador Qualifica.
Quando convidados a virem ao Centro Qualifica para uma sessão de esclarecimento coletiva não recusaram. Não tinham nada a perder e o que se supunha ser uma sessão breve transformou-se, logo ali, numa conversa que facilmente se confundiria com o início do processo. Foi notório o entrosamento entre os candidatos, deixando antever que o grupo tinha requisitos estruturantes para funcionar bem. Não foi, porém, assim tão linear, pois se para uns estava clara a ideia de fazer a inscrição e “ver o que isto vai dar”, também houve quem considerou que não era o momento. No entanto, duas décadas de experiência facilmente colocaram a equipa do Centro na posição de quem vê para lá do objetivamente observável, de quem sente para lá do percetível e não desistiu de acreditar. Foi assim que o grupo aumentou em número de elementos, em coesão e força agregadora, sendo exemplo, inclusive, para outros candidatos.
Deixaram de ser apenas os formandos de distintas turmas de Aplicação de Produtos Fitofarmacêuticos da COPOMBAL para passarem a partilhar cronogramas no processo de RVCC, boa disposição, risos, experiências de vida e até alfaces, o que revelava a cumplicidade e os laços criados. Compareceram sempre, com pontualidade e compromisso inquebráveis, apresentando-se meia hora antes do início das sessões e aproveitaram esses momentos para desfrutar do bar da Escola. Das sessões, uns levaram ferramentas que poderão ajudá-los na reintegração profissional e outros conhecimentos de informática que irão certamente utilizar na sua vida pessoal, uma vez que aprender a trabalhar com o computador foi uma das principais motivações que os mobilizou. Mas, para eles, o processo de RVCC era muito mais do que o próprio processo. Era uma oportunidade de combater o isolamento social, de confraternizar e de sair da rotina. Tornaram-se verdadeiros parceiros.
Habituados a trabalhar a terra, a semear e a cuidar, tiveram sempre discernimento para filtrar o essencial e, com orgulho, colher os frutos que o processo de RVCC lhes deu. E, porque um ponto de chegada é um excelente ponto de partida, que o final desta etapa seja prenúncio de outras que breve iniciem.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Globalização
A evolução dos meios de transportes e da tecnologia propulsionou a globalização, com apenas meia dúzia de cliques conseguimos saber aquilo que se passa do outro lado do mundo, conhecer novas realidades e culturas ou simplesmente matar saudades de familiares que emigraram. Também os portugueses contribuíram para este fenómeno através dos Descobrimentos. É a globalização que liga as provas de júri de certificação do dia 17 de julho de 2025.
O primeiro candidato fez uma apresentação[1] inspirada na obra “Nexus: História Breve das Redes de Informação” de Yuval Noah Harari.
Uma citação do edital do New Englander de 1858 serviu para introduzir a visão ingénua da informação, que postula que a informação leva à verdade que por sua vez dá poder e sabedoria. Por vezes esta teoria comprova-se como é o caso da área da saúde. Apesar da evolução tecnológica ter trazido mais facilidade de acesso à informação, isso não se traduziu em mais sabedoria ou em menos preconceitos. Na verdade assiste-se à ascensão do populismo, com discursos marcados pela acusação de “elites” ocultarem informação, pondo em causa “verdades” e “factos comprovados”. Este fenómeno altera a forma como se questiona a validade da informação, existindo nos dois polos extremos do espectro político.
O candidato concluiu enfatizando que os discursos populistas assentam num contrassenso por defenderem que para combater elites sedentas de poder, o mesmo deve ser dado exclusivamente a um líder carismático.
A segunda apresentação[2] baseou-se na obra “A Mensagem” de Fernando Pessoa, que relembra a glória do nosso país e profetiza um futuro ilustre. O candidato começou por explicar o contexto histórico que influenciou a obra, nomeadamente o mapa cor-de-rosa, o ultimato britânico, implementação da república, ditadura militar e Estado Novo. Referiu a estrutura da obra. Relativamente à primeira parte, Brasão, destacou cinco figuras históricas que são homenageadas em “A Mensagem”. No que diz respeito à segunda parte, Mar Português, enumerou os marcos históricos dos Descobrimentos, lembrando que esta época também foi marcada pelo sofrimento, através versão cantada por Carlos do Carmo do poema Mar Português. Destacou os contributos dos Descobrimentos para a globalização, da tecnologia à disseminação cultural. Passou um excerto do discurso de Lídia Jorde do dia dez de junho de dois mil e vinte cinco, lembrando que apesar de polémico, refere questões pertinentes da nossa história. Para a terceira parte, O Encoberto, explicando o sebastianismo e a profecia do Quinto Império.
[1] https://gamma.app/docs/Nexus-Informacao-e-Poder-y3frllefdkzwau0
[2] https://gamma.app/docs/A-Mensagem-de-Fernando-Pessoa-tgquqe9jst88nse
Mikael Mendes – Técncio de ORVC
50 Anos de Vida, 12º Ano no Papel e no Coração
Inscrevi-me no Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas de Pombal para conclusão do 12º ano já com uma lição de vida de 50 anos.
Iniciei o processo de RVCC em outubro de 2024 e conclui a 10 de julho 2025. Foram 9 meses de muita dedicação, mas tive sempre o acompanhamento da coordenadora e dos técnicos do Centro Qualifica sem esquecer dos formadores que incansavelmente e com muita paciência me foram ajudando nas sessões de Formação Complementar.
Apanhei todas as estações do ano, e mesmo para minha admiração, em dias menos bons, com chuva e até mesmo mais cansada, nunca me passou pela cabeça, não ir à sessão agendada. Tal era a vontade de aprender mais e de concluir o 12º ano.
Todas as sessões foram de aprendizagem, e algumas marcaram-me muito. Ficará na minha memória a peça “Lusíadas” pelo TAP, pois em ambiente lúdico, revivi um momento importante da história de Portugal, a viagem de Vasco da Gama à Índia.
Destaco também como momento alto, o evento” Sons e Sabores da Multiculturalidade – à pala de Camões” que para além de me dar a conhecer o número elevado de imigrantes que vivem em Pombal e de ouvir a sonoridade das suas línguas, permitiu-me conviver à volta de uma mesa multicultural.
A videoconferência com o professor Joaquim Eusébio com o tema ´´Á descoberta da globalização” foi muito enriquecedora. Revelou muita simpatia, sentido de humor, um vasto conhecimento e um gosto por partilhar o que sabe com outras pessoas.
A vinda da diretora do Jornal Pombal Manuela Frias, sobre a temática as notícias falsas ou as (Fake News) ajudou-me a refletir sobre um tema do qual toda a sociedade fala hoje. Foi um alerta para uma maior atenção a todas as informações e vídeos que me aparecem nas redes sociais.
A atividade da Assertividade foi marcante pela oportunidade que me deu de refletir sobre o modo como lido com os outros.
O processo RVCC foi assim uma oportunidade para olhar para dentro de mim, mas também à minha volta. Sinto-me mais desperta para os desafios da sociedade atual. Sinto que evolui muito ao nível da minha capacidade de escrita e sobretudo no uso do computador pois foi aqui que aprendi tudo o que sei.
Não foi fácil, conciliar a atividade profissional, e a vida pessoal com a ida para as sessões à noite, e ainda os trabalhos que tinha que concluir em casa, mas tudo o que aprendi foi uma vitória pessoal.
Chegou a fase de preparação para a Prova de Certificação e, como em muitas outras situações, estava muito nervosa, mas mais uma vez com muita dedicação mergulhei na obra “Admirável mundo novo” romance escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932.
Um agradecimento profundo a todos os elementos da equipa do Centro Qualifica.
Madalena Rocha – Candidata do Processo RVCC de nível Secundário
Educação e Formação de Adultos 2040: Liberdade, Democracia
Sob o mote “Educação e Formação de Adultos 2040: Liberdade, Democracia”, a Associação Portuguesa de Educação e Formação de Adultos (APEFA) realizou a partir da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, no dia 4 de julho, o XI Seminário Nacional e III Internacional de Educação e Formação de Adultos, como tem sido seu apanágio ao longo dos últimos anos.
Este é um dos poucos momentos anuais em que os elementos da rede nacional de Centros Qualifica têm oportunidade para se reencontrar e partilhar preocupações. Uma das mais significativas continua a ser o presente e o futuro da Educação de Adultos, marginalizada do sistema educativo e perspetivada como “parente pobre” deste, embora continue a dar resposta a milhares de pessoas e a ser um rasgo de esperança nos olhares de muitas por se assumir como uma ferramenta cultural, política e social de capacitação individual e coletiva.
No Painel da manhã, subordinado ao tema “O papel da Educação de Adultos na promoção e defesa da liberdade e democracia”, debateu-se o trinómio “Educação, Liberdade, Democracia”, sendo que a Educação se orienta para a cidadania e permite a defesa dos outros dois valores e ao mesmo tempo a Democracia assume centralidade na defesa do direito à Educação. O Professor Doutor Luís Rothes arriscou ir mais longe, sugerindo a leitura dos programas eleitorais dos vários partidos políticos, dado que vários não têm qualquer referência à Educação e Formação de Adultos. Identificou ainda o esforço público como fundamental no combate às desigualdades que o PIAAC continua a trazer a público.
O Painel da tarde, “EFA 2040: e nós, Portugal! Por que agir? Com o que podemos contar?” era, pelas questões levantadas pela audiência, o mais aguardado, numa tentativa clara de compreender que caminho está a ser trilhado e para onde se vai. Foram mais as questões do que as respostas e as certezas. O foco centrou-se nas intervenções dos representantes do PESSOAS2030 e da ANQEP: na primeira, foram tecidas considerações sobre a execução física e financeira da oferta formativa; na segunda, foram sublinhados os desafios a curto e médio prazo, devido a questões demográficas (dado que cada vez mais se lida com públicos mais velhos) e de migração. Aqui, Ana Cláudia Valente, em representação da entidade tutelar, destacou que o primeiro grande desafio dos Técnicos é mobilizar a população adulta para voltar ao sistema formativo, colocando a tónica na qualidade do trabalho realizado pela rede de Centros Qualifica e deixando uma palavra encorajadora a todos quantos nestes trabalham, visando a mobilização de públicos que, tradicionalmente, permanecem mais afastados da educação e da formação, ciente de que muito já se construiu em quase uma década de Programa Qualifica, mas muito continua por (e para) fazer em prol de um país mais coeso.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Academia Digital: Curso de Competências Digitais Básicas
Em junho de 2025, fomos convidados a participar numa Academia Digital que decorreu na Escola Secundária de Pombal com o objetivo de promover a literacia digital e o uso responsável das tecnologias.
Como nos tínhamos inscrito no Centro Qualifica tendo como uma das nossas principais motivações aprender a utilizar o computador, aceitámos esse convite e realizámos o Curso de Competências Digitais Básicas com a duração de 8 horas, que decorreu em horário pós-laboral uma vez por semana, desde o dia 12 até ao dia 30 de junho.
Os monitores foram alunos voluntários do Curso Profissional Técnico de Programador Informático, que sempre estiveram muito disponíveis e atentos às nossas necessidades e dificuldades e perante qualquer dúvida que colocávamos, estavam prontos para nos ajudar.
Aprendemos a criar pastas e a guardar diferentes ficheiros, mudando o respetivo nome para uma mais fácil organização e localização. Também explorámos algumas funcionalidades da barra de ferramentas do programa Microsoft Word, tais como mudar tamanho, cor e tipo de letra, alterar margens e fizemos alguns exercícios práticos em que pudemos aplicar estes conhecimentos. Foram-nos ainda dadas algumas dicas a ter em conta no sentido de pesquisar informação em sites fidedignos. Como acedemos à Internet sobretudo através dos nossos telemóveis, que são minicomputadores, estes cuidados podem ajudar-nos a identificar fontes seguras e evitar “cair em armadilhas” como fraudes e burlas.
Foi uma excelente oportunidade para desenvolver conhecimentos fundamentais no mundo digital promovendo uma utilização mais segura e consciente das tecnologias. Tudo isto vai-nos ser muito útil para o processo de RVCC, uma vez que uma das áreas de competências-chave é precisamente Competências Digitais.
Maria Albertina Gameiro, Manuel Carlos Freire, Gilberto Rodrigues, Tetyana Ratych e Nikolay Pogodin
Candidatos do Processso de RVCC- B3
Cerimónia de Entrega de Diplomas e Certificados
A Ambivalência
A ambivalência é uma propriedade característica inerente ao ser humano e a muitas das suas criações. A internet não é exceção, se por um lado facilitou o acesso à informação e aproximou as realidades, tornando ainda mais “pequena” a aldeia global em que vivemos. Por outro lado o espaço virtual é profícuo em posições radicalizadas ou demasiado egocêntricas. A responsabilidade nunca será impotável à ferramenta em si, mas ao uso que cada um decide fazer da mesma. A educação é a estratégia mais importante para combater as desigualdades e aproximar os povos, assegurando o acesso ao conhecimento e o desenvolvimento de novas competências.
De certa forma estes temas foram abordados por duas candidatas na sessão de júri de certificação de nível secundário que teve lugar no dia vinte de junho de 2025. A primeira apresentação[1] foi inspirada pela obra “No Enxame”, da autoria de Byung-Chul Han.
Começou por referir o impacto que a era digital teve em conceitos como o respeito, o nome e o tempo. Mencionou as ondas de indignação para destacar, destacando o egocentrismo, o imediatismo e o isolamento que impera na era digital. Explorou ainda o impacto da internet ao nível da transmissão da informação. Lembrou-nos que a liberdade em que vivemos é apenas aparente, pois somos pressionados a estar cada vez mais online, o trabalho invade a vida pessoa, há um foco na métrica digital (e.g. número de gostos e partilhas) e um culto pela imagem manipulada. Mencionou de que forma o cidadão ativo se tem tornado um comprador passivo, mesmo em questões políticas, concluindo com uma reflexão sobre a evolução do poder que atualmente é determinado pelos Big Data e pelo controlo de variáveis internas dos indivíduos.
A segunda apresentação[2] inspirou-se no livro “Eu Sou Malala” de Malala Yousafzai. Malala é uma figura muito importante na luta pelo direito a educação das raparigas, cuja história começou no Paquistão, mas que rapidamente chegou ao resto do mundo através do seu discurso na ONU. A candidata abordou os contributos de Malala para o combate às desigualdades de género e a defesa do direito à educação, dois dos dezassete Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS). Analisando o índice de igualdade de género, medido pela União Europeia, enfatizou que em Portugal tem-se assistido a uma evolução positiva entre 2013 e 2024, principalmente na distribuição de tarefas domésticas em casa e no acesso a cargos de poder, mas que ainda há muito a fazer.
[1] https://gamma.app/docs/No-Enxame-Digital-jaqxj32vq8183t2
[2] https://gamma.app/docs/Malala-A-luta-pelo-direito-a-educacao-n4wg9z0hji808u4
Mikael Mendes – Técnico de ORVc
Caminhos para a integração – Atividade integradora do Curso EFA
“Caminhos para a Integração” foi o fio condutor de um trabalho vivido passo a passo com emoção e consciência crítica.
O nosso primeiro passo foi dado no Auditório Gabriela Coelho com as “Narrativas de Integração”, atividade inserida na área de Cidadania e Profissionalidade – UFCD 1.
Convidámos os formandos do Projeto de Língua de Acolhimento (PLA) e foi com eles que construímos uma mesa redonda onde foram partilhadas histórias de superação de quem, vindo de diferentes partes do mundo, encontrou em Pombal um lugar, um novo rumo para a sua vida.
Mas quisemos ir mais longe. Criámos um inquérito para perceber a importância das tecnolgias para a integração dos imigrantes. Isto foi no âmbito da UFCD 5 de Sociedade, Tecnologia e Ciência, com recurso à plataforma Google Forms, e convidámos colegas do ensino noturno de diversas nacionalidades a participarem. Os resultados revelam que a internet serve como motor da tecnologia para a inclusão social, é fundamental na procura de informação sobre serviços sociais, emprego, saúde…
Também fomos ao cinema ou melhor, trouxemos o cinema até nós. Com a visualização dos filmes “Titanic” e “Missão: Mar Vermelho”, viajámos pelas emoções humanas universais: o medo, a esperança, a coragem. Dois filmes que nos ajudaram a recordar episódios de emigração ao longo dos séculos. Também nos debruçamos sobre os fluxos migratórios dos portugueses e construímos um Padlet.
E porque as fake news também distorcem a perceção pública sobre os migrantes, alimentando preconceitos e desinformação, recebemos a Dr.ª Manuela Frias, diretora do Jornal Pombal, que nos guiou numa palestra sobre Fake News. Isto foi na área Cultura, Língua e Comunicação, UFCD 5. Aprendemos a olhar as notícias com olhos críticos. Aprendemos a perguntar: qual é a fonte? Quem assina esta notícia? O título é verdadeiro ou só quer chamar a atenção?
Cada uma destas atividades não foi um fim em si mesma. Foram de crescimento pessoal, social e cultural, rumo à verdadeira integração, onde todos têm voz, onde todos contam.
Os Formandos do Curso EFA – NS
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Desafios da Sociedade do Cansaço
A T. iniciou o processo de RVCC no dia 07 de junho de 2023 num ritmo que, a manter-se, faria com que demorasse muito mais tempo a concluir um percurso que a Carta de Qualidade dos Centros Qualifica aponta como devendo ter duração desejável compreendida entre 9 a 12 meses. Tal confirmar-se-ia porque a sua disponibilidade estava comprometida com os constrangimentos que se lhe atravessavam no caminho e porque primeiro esteve sempre o mais importante. De facto, as decisões que tomou ao longo da sua vida, desde nova, deram sempre primazia ao mais importante – como intitulou o seu portefólio – e, embora o processo de RVCC também o fosse, muitas vezes não esteve no topo das prioridades e competia à Equipa do Centro respeitar quando era a sua família, a saúde ou o bem-estar físico e mental a ocupar esse lugar.
No entanto, apesar de inicialmente se refugiar na flexibilidade característica deste processo, rápido tomou consciência de que não poderia continuar àquele ritmo se pretendia libertar-se desta etapa para permitir que outras entrassem na sua vida, de tal modo que o discurso inicial de “não posso…” transformou-se em “vou fazer o esforço e vou conseguir!”. E esta é precisamente uma das expressões presentes na voz da sociedade contemporânea, como Byung-Chul Han refere na sua obra “Sociedade do Cansaço”, a qual serviu de inspiração à apresentação do trabalho final da T., na sua sessão de júri de certificação, que decorreu no dia 29 de maio de 2025.
Fazendo um paralelismo com as suas experiências pessoais e profissionais, a candidata começou por descrever a sociedade do tédio, na qual se assiste a uma fragmentação da atenção, que decorre do multitasking e da constante pressão para o desempenho, o que conduz ao assédio laboral em muitas organizações que, de acordo com Byung-Chul Han, atinge proporções pandémicas nas organizações contemporâneas. No que concerne à sociedade do cansaço, salientou que as doenças do século XXI são inflamatórias e não infeciosas e decorrem do excesso de estímulos externos e da dificuldade em descansar com qualidade, o que se repercute em estados de burnout e de depressão. Quanto ao impacto da tecnologia, a candidata destacou a hiperconectividade a que estamos sujeitos devido
à utilização do telemóvel (que se até há relativamente pouco tempo apenas permitia estabelecer comunicação através de mensagens e telefonemas, hoje é um minicomputador que trazemos no bolso), a exposição a excesso de informação (surgindo muitas vezes Fake News para as quais é necessário estar-se particularmente atento) e o papel assumido pelas redes sociais, que muitas pessoas utilizam como meio de autopromoção. No que respeita à crise da negatividade, destacou a cultura do otimismo, que leva a que muitas pessoas sejam intolerantes à frustração (não dispondo de ferramentas emocionais que lhes permitam ultrapassar adversidades) e a perda de pensamento crítico (que necessita de reflexão, questionamento, hipóteses e dúvida para se desenvolver – o que não é possível numa sociedade “mecanizada” entre um somatório asfixiante de tarefas).
A obra de Byung-Chul Han não termina sem uma recomendação para vencer todos estes desafios que perpassam a sociedade contemporânea: a valorização do ócio que, embora muitas vezes confundido com preguiça, favorece a reflexão, a introspeção, a contemplação, o autoconhecimento e o significado existencial. Na realidade, embora hoje em dia seja uma tarefa hercúlea viver sem dispositivos tecnológicos e ferramentas digitais, é possível assumir uma atitude crítica e consciente, impondo por vezes limites a nós próprios, no sentido de desacelerar o ritmo em que tudo se executa para nos permitirmos também desconectarmos do digital para nos conectarmos ao “aqui e agora”.
Isabel Moio -Técnica de ORVC
Sair da Caverna
As rotinas do dia a dia impõem-se muitas vezes sem darmos por ela, consumindo as nossas energias e remetendo-nos a um estado de “hibernação”. Em rápidos momentos de lucidez apercebemo-nos que nos fomos esquecendo dos nossos sonhos e projetos, embalados pelas obrigações e responsabilidades. No entanto, basta esta tomada de consciência para reunir coragem e lançar-se à exploração e descoberta. Foi esse o sentimento que trouxe A. à porta do nosso Centro e que a motivou a fazer o processo RVCC.
A própria acabaria por referir-se ao processo RVCC como o “Sair da Caverna”. Nesta viagem das entranhas da terra à liberdade, ela começou por avivar a brasa da curiosidade, que com um simples sopro se animou para alumiar novos caminhos. Guiada por esta nova luz, recordou que os livros são uma boa fonte de conhecimento e sem tardar começou a explorar a biblioteca. Ainda com os movimentos entorpecidos, foi treinando a escrita e a sua história foi surgindo, com altos e baixos, mas sempre muito para contar. Valorizava o apoio da equipa, mas soube percorrer muitos quilómetros sozinha, pois a ânsia de ver a luz do sol era mais forte.
Nesta aventura conheceu o “Gustavo Pedro Teixeira”, mais conhecido por GPT, um conversador nato, adepto do gerúndio, que a ajudava a organizar os seus textos. Foi preciso algum tempo e sinais de alerta para perceber que, apesar de este ser uma boa companhia, não podia acreditar em tudo o que ele dizia.
Por ter manifestado curiosidade pela ciência, foi-lhe proposta a apresentação[1] do livro “Os Limites da Ciência” de Jorge Calado para a sua sessão de júri, que decorreu a 29 de maio de 2025. Assim expos os tipos de limites da ciência, os internos, os científicos e os provisórios e explorou quatro condicionantes da ciência, que são a linguagem, a ética, a política e o dinheiro.
Agora que saiu efetivamente da caverna, tem pela frente um mundo de possibilidades para explorar.
[1] https://gamma.app/docs/Limites-da-Ciencia-wucnyxncj6istuq
Mikael Mendes – Tecnico de ORVC
