Embora muitas vezes associado ao normal funcionamento do ano letivo, o trabalho do Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas de Pombal não segue as mesmas janelas temporais. Por isso, ainda o novo ano letivo tinha acabado de espreitar quando já dois candidatos de comunidade cigana, que realizaram processo de RVCC de Nível Básico, preparavam-se para a última etapa deste percurso: a sessão de júri de certificação, que ocorreu no dia 26 de setembro.
Independentemente dos motivos que os levaram a deixar o percurso escolar, no devido tempo, para trás, chegaram até nós apresentando alguns denominadores em comum: acreditam que ainda que curta, se essa etapa não tivesse existido “jamais teriam aprendido a ler e escrever, retirando assim praticamente toda a possibilidade de poder levar uma vida sem depender da ajuda de outras pessoas”; pretendiam realizar o processo o mais rapidamente possível, cumprindo os requisitos a que este obriga, mas os imprevistos que se adensaram provaram-lhes que “quanto mais depressa, mais devagar”; reconhecem que o seu futuro não passa pelo legado transmitido pelo seu histórico familiar – as feiras – e que lhes compete um papel ativo na mudança de paradigma no sentido de uma efetiva integração social.
De facto, hoje, mais do que apenas ler as palavras, impera a necessidade de ler o mundo, pois já Paulo Freire defendia que só faz sentido o esforço de ler o texto se for para compreender o mundo, para nos compreendermos nele e o modificarmos na perspetiva da liberdade e da emancipação humana.
Se nem sempre foi fácil urdir a teia de saberes e de competências que naquele dia o C. e a T. apresentaram e defenderam perante o júri, a equipa do Centro acredita que terá sido um bom exercício de reflexão sobre o passado, mas também sobre o que almejam para cada novo “amanhã”, numa perspetiva de crescimento pessoal e profissional.
Isabel Moio – Técncia de ORVC
Viagem com Vasco da Gama à Índia – SMAL
É com grande prazer que vos convidamos a embarcar numa fascinante jornada literária e musical, inspirada na épica viagem de Vasco da Gama à Índia.
Preparem-se para vivenciar as experiências dos marinheiros a bordo da caravela São Gabriel! Mergulhem nas emoções, desafios e descobertas que estes bravos navegadores enfrentaram durante a viagem, desde as tempestades do Atlântico até os encontros com novas culturas em terras distantes.
Data: 30 de setembro
Hora: 20:00 horas
Local: Biblioteca Escolar da Escola Secundária de Pombal
Agradecimento e Elogio: “Sinfonia de Ritmos”
Assim como numa orquestra, onde cada instrumento contribui com o seu som único para criar uma harmonia perfeita, cada um dos participantes trouxe a sua experiência, dedicação e talento para enriquecer a nossa Cerimónia de Entrega de Diplomas/Certificados.
Em primeiro lugar, muitos Parabéns aos verdadeiros artistas desta composição: os formanos do processso de RVCC de nível básico e secundários e os fornandos dos cursos EFA e PLA. Cada desafio superado, cada nova habilidade adquirida foi como uma nova nota acrescentada à partitura das suas vidas. A diversidade das vossas experiências e perspetivas criou uma harmonia rica de aprendizagem e crescimento.
Um profundo reconhecimento a cada um dos formadores e Técnicos de ORVC pois conduziram com maestria e paciência cada nota, cada compasso. A vossa dedicação inspirou os nossos candidatos e formandos a alcançarem neste evento e ao longo de todo o ano letivo notas que jamais imaginaram possíveis.
Estendo os meus agradecimentos à professora bibliotecária, Fernanda Gomes e a todos assistentes operacionais, cujo trabalho incansável nos bastidores foi essencial para garantir o bom funcionamento deste evento e de toda a atividade pedagógica ao longo do ano.
Em nome do Agrupamento de Escolas de Pombal, gostaria ainda de expressar a minha sincera gratidão às entidades que tornaram esta cerimónia possível. Um agradecimento especial à Sra. Vereadora da Educação, Dra. Catarina Sila, e à Presidente da Junta de Freguesia de Pombal, Dra. Carla Longo, pelo seu apoio e compromisso com a educação.
Não posso deixar de agradecer o Rancho Típico de Pombal, cuja contribuição cultural deu brilho à nossa cerimónia.
Finalmente, um especial agradecimento à imprensa local, Pombal Jornal e Onda Certa por ajudarem a dar visibilidade a este importante evento.
Que esta “Sinfonia de Ritmos” continue a ecoar nas nossas vidas, lembrando sempre da importância da colaboração, da celebração da diversidade e da alegria que a aprendizagem pode trazer.
Parabéns e obrigada a todos!
Cristina Costa – Coordenadora do Centro Qualifica
Do Éden ao Jardim dos Animais com Alma
O ser humano tem tendência a ser muito autocentrado, imaginando-se no centro do Universo (Antropocentrismo). Esta característica faz-se sentir aos mais variados níveis, influenciando a sua visão do mundo. Em tempos, acreditava ser literalmente o centro do Universo, com o Sol e todos os astros a circularem em torno da Terra. O desenvolvimento científico veio comprovar que o Sol está no meio do nosso Sistema Solar, por sua vez localizado na periferia da Via Láctea. Também na religião existe a propensão para atribuir traços humanos às divindades. Já na biologia, o ser humano é colocado no topo da cadeia alimentar, como único detentor de inteligência, emoções ou consciência. Também esta visão tem sido desacreditada pelas evidências científicas, que cada vez mais reconhecem competências de resolução de problemas, de aprendizagem ou de comunicação aos restantes animais.
Foi sobre esta temática que S. baseou a sua apresentação na prova de júri de certificação que se realizou no dia 24 de julho, inspirada pela obra “O Jardim dos Animais com Alma” de José Rodrigues dos Santos.
A candidata é defensora dos direitos dos animais, pelo que acolheu com naturalidade a proposta de leitura do Centro Qualifica. Na sua exposição referiu exemplos das competências dos animais, nomeadamente a capacidade dos chimpanzés comunicarem através de língua gestual. Mencionou o veganismo e vegetarianismo, reconhecendo que nem todos nos revemos nestes estilos de vida. Se por um lado, já existe um selo para comprovar condições de bem-estar animal na indústria de criação de gado, por outro o impacto ambiental de uma dieta rica em proteína animal não é negligenciável. Contudo, a produção em grande escala de produtos vegetais não está isenta de riscos, sendo que o cultivo de soja ou cacau está associado a elevadas taxas de desflorestação ou mesmo à exploração infantil.
A conclusão desta apresentação foi que devemos ser consumidores conscientes e atentos, que equilibram e integram informações muito divergentes. Se optarmos por seguir uma dieta mediterrânica, com consumo de produtos regionais e sazonais, ingerindo quantidades moderadas de carne ou de peixe, podemos fazer a diferença e diminuir a nossa pegada ecológica.
Mikael Mendes – Técnico de ORV
O Impacto de um livro
Em 2016 circulavam pelas redes sociais fotografias de uma obra de arte do artista mexicano Jorge Méndez Blake intitulada “O Castelo”[1]. Nesta, era construído um muro sobre o livro “O Castelo” de Franz Kafka, sendo visível o “desalinhamento” provocado por este elemento. Apesar de o nome da obra ser inspirado no título do livro usado, os internautas conhecem esta criação por “O impacto de um livro”, título da publicação nas redes sociais.
“O Castelo” percorreu o mundo, sendo exposto em vários museus, a última vez em Istambul em 2013. Este muro mostra-nos bem a forma como um objeto tão pequeno pode provocar mudanças tão grandes e significativas. Os livros têm o poder de abrir horizontes, estimular a imaginação, disseminar o conhecimento, desenvolver o domínio da língua, promover o pensamento crítico, entre tantos outros benefícios. Com uma vastidão imensa de possibilidades, existem estilos literários para todos os gostos e especificidades. A única certeza é que ninguém consegue ler numa vida tudo aquilo que já foi editado. O poder da literatura não é novidade, havendo vários períodos da história em que existiam livros proibidos por não estarem alinhados com as ideologias de quem governava.
Se há livros que ficam imortalizados, os reconhecidos clássicos da literatura, outros há que desvanecem com o passar do tempo. A qualidade de uma obra não depende apenas do seu conteúdo ou da forma como está redigido, a lente de quem lê, influenciada pela sua experiência prévia e personalidade, condiciona a mensagem que é retirada. Havendo várias leituras possíveis de um mesmo texto.
Para estimular este hábito, respeitando a subjetividade de cada um, tornou-se prática comum que as apresentações das sessões de júri de certificação de nível secundário assentem em livros. A sessão de 17 de julho não foi exceção.
J. sugeriu que a sua apresentação fosse inspirada nos Discursos e Homílias do Papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ). Na prova destacou alguns marcos da história, mencionados na JMJ, nomeadamente os Descobrimentos e a Criação da União Europeia. Analisou também alguns desafios da atualidade à luz da ciência.
Já C. baseou a sua exposição no romance “Inferno” de Dan Brown, explorando a questão da sobrepopulação, analisando criticamente a teoria malthusiana e a teoria reformista. Concluiu enfatizando a importância da entreajuda e da compaixão num cenário de escassez de recursos.
Tal como a leitura é transformadora, também se espera que o processo RVCC tenha um impacto profundo a vários níveis. Dos mais óbvios, como o é a obtenção de um certificado para prosseguimento de estudo ou progressão na carreira, aos menos divulgados, mas atrevo-me a dizer ainda mais importantes, como são a exploração de novos conhecimentos e competências e o desenvolvimento da autoestima e autoeficácia. Com frequência assistimos à reestruturação dos candidatos para edificar um “muro” com alicerces mais fundos e estrutura mais robusta.
[1] https://verne.elpais.com/verne/2016/03/04/mexico/1457053584_656377.html (Consultado a 29 de julho de 2024)
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
Curso de Educação e Formação de Adultos (EFA) – Balanço
O curso EFA decorre em horário pós-laboral e destina-se sobretudo a jovens trabalhadores estudantes. Tem inscrições abertas durante todo o ano para receber todos aqueles que desejam concluir o ensino secundário, e por algum motivo não o fizeram no ensino diurno.
No ano de 2023/2024 inscreveram-se 25 formandos, uns com o 9º ano, outros com o 10º e outros com apenas algumas disciplinas em falta para conclusão do 12º ano. 9 formandos eram de nacionalidade brasileira.
Para além das sessões de formação em contexto de sala de aula, os cursos EFA funcionam em torno de Atividades Integradoras que possibilitam a interdisciplinaridade, a interelação e contextualização dos conhecimentos e a ligação com a comunidade
Este ano, foram desenvolvidas duas: “Novos padrões e dinâmicas da sociedade atual” e “Rumo ao cinquentenário do 25 de abril”.
No âmbito do desenvolvimento da primeira Atividade destacam-se as seguintes palestras: “Novas formas de comunicação em família e problemas associados”, dinamizada pela psicóloga Sónia Mira, do Centro de Saúde de Pombal, “Processos da procriação medicamente assistida e questões de bioética associadas ao procedimento” com a Dra. Ana Paula Sousa da Universidade de Coimbra; “Esposas e donas de casa” dinamizada pela Dra. Maria Alice Guimarães, docente da Escola Secundária e “ Novos padrões, dinâmicas e estilos de vida na sociedade atual – igualdade de género e de papéis na família” dinamizada pela APEPI.
Como produto final foi construído um e-book que poderá ser consultado aqui.
No âmbito da segunda Atividade os formandos participaram em diversas atividades, que visaram a comemoração dos 50 anos do 25, a saber: Tertúlia “Ao Redor da Liberdade- Mulheres do Meu País” dinamizada pelo Arquivo Municipal de Pombal; Apresentação do livro “Zeca Afonso – Balada do Desterro”, dinamizada pela Biblioteca Municipal de Pombal; Percurso histórico pelas ruas da cidade, com destaque para a visita à exposição “Salgueiro Maia revisitado – O capitão de abril como nunca foi visto” e o mural “Salgueiro Maia”, do artista João Ribeiro, inaugurado no dia 1 de maio de 2024. Os formandos tiveram ainda a oportunidade de assistir ao filme “Capitães de Abril”, da realizadora Maria de Medeiros e inteirar-se de muitos dos acontecimentos ocorridos neste período da história portuguesa.
Estas atividades foram muito enriquecedoras para os formandos, na medida em que promoveram a reflexão sobre a família na sociedade atual e as novas dinâmicas familiares, assim como o conhecimento sobre o passado recente do país, incentivando-os a compreenderem o significado da luta pela democracia.
No dia dezanove de julho os seis formandos que reuniram as condições para terminarem o seu percurso escolar secundário receberam os seus diplomas. Os restantes irão continuá-lo no próximo ano letivo, uma vez que o curso se adapta a cada situação e recebe novos formandos durante todo o ano letivo.
Lurdes Abadesso –Mediadora do Curso EFA
Passo a passo
I
Melhorar a proficiência no Português
Foi-lhe a força motriz para a inscrição
Mas foi muito mais aquilo que fez
Do primeiro momento à certificação
Nas dúvidas havia o Google Tradutor
Para converter a tradução em Mandarim
Porque aprender é também um ato de amor
Que tem começo mas não tem fim
II
Sempre de caderno aberto
E de lápis pronto na mão
Bebeu conteúdo de cada palestra, é certo
E, ao longo dos meses, de toda a sessão
Registou, fixou, cresceu
Como semente que germina com calma
E o que o processo com tempo lhe deu
Foi uma espiga dourada com alma
III
Foi no dia 11 de julho do ano corrente
Que aconteceu o júri de certificação
E cada história de vida de forma evidente
Apresentou a prova com saber e emoção
E porque um ponto de chegada
É um excelente ponto de partida
Que seja uma rampa esta etapa terminada
Para a aprendizagem ao longo da vida
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Em princípio
Em princípio, quem chega ao Centro Qualifica vem com o propósito de aumentar as qualificações escolares por estas serem a chave de que necessitam para abrir novas e melhores possibilidades profissionais e formativas.
Em princípio, o processo de RVCC é exatamente o significado do monograma por extenso: Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências.
Mas, em princípio, quem trabalha nesta área da Educação de Adultos facilmente compreende que a exceção, aqui, é a regra. E são muitas, as exceções. O J. é apenas mais uma delas. Saiu da escola há tantos anos quantos se comemora, este ano, a Liberdade: 50. E o direito à educação, uma das liberdades e uma das portas que Abril abriu, permitiu-lhe ver uma delas no nosso Centro. Afinal, aqui todas as pessoas e todas as histórias cabem, independentemente do motivo que levou ao término precoce do percurso escolar porque outras responsabilidades erguiam mais alto a voz.
A expressão ‘Em princípio’ foi tão assídua como o J., ora porque os 35 anos como emigrante fizeram com que o Francês se atravessasse no caminho quando agora, retomava hábitos de escrita perdidos no tempo, ora porque as naturais hesitações e inseguranças de quem ficou apenas com a “quarta classe” e nunca teve oportunidade de explorar as funcionalidades do computador se transformavam em pedras no sapato e dores de cabeça. Foi por tudo isso conjugado que, repetidamente, a equipa ouviu ‘em princípio escreve-se assim’, ‘em princípio foi nesse ano’, ‘estou a contar terminar isto, pelo menos em princípio’.
Com todas estas especificidades, o dia 4 de julho foi-lhe emotivo, talvez porque soube ao dia do “exame da quarta classe”, aqui adensado com o desafio de, pela primeira vez, utilizar com confiança um comando para apresentações que lhe facilitou a transição de diapositivos.
Foi assim que o J., um dos exemplos que veio para o Centro Qualifica apenas numa lógica de fugir à rotina e de absorver novos conhecimentos, fechou a porta do 9.º ano para, em princípio, realizar outras formações e, assim, continuar ativo ao longo da sua vida.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Liberdade, Desenvolvimento, Bem-Estar
Sob o mote “Liberdade, Desenvolvimento, Bem-Estar”, a Associação Portuguesa de Educação e Formação de Adultos (APEFA) realizou, no dia 5 de julho 2024, o X Seminário Nacional e II Internacional de Educação e Formação de Adultos, como tem sido seu apanágio ao longo dos últimos anos.
Este continua a ser dos poucos momentos em que os elementos das equipas dos Centros Qualifica, de norte a sul do país, têm oportunidade para se reencontrarem, estreitarem laços e partilharem dúvidas e preocupações. Uma das mais significativas: o presente e o futuro da Educação de Adultos. A este respeito, o Secretário Adjunto de Educação, Alexandre Homem Cristo, afirmou publicamente que a Educação e Formação de Adultos estará no horizonte político do Governo. De facto, a intermitência das políticas públicas nesta área, a marginalidade da EFA no sistema educativo português e os programas fluidos, concebidos ao ritmo das prioridades das forças políticas no poder, estiveram, uma vez mais, no centro do debate e das intervenções.
Apesar disso, é inegável que a Liberdade conquistada com o 25 de Abril de 1974 abriu caminho para o Desenvolvimento na Educação, refletindo-se em ganhos que não eliminaram o atraso histórico do nosso país nos níveis de escolarização, mas tem vindo a esbatê-lo. E foi esse Desenvolvimento e o Bem-Estar que proporcionou que levou a APEFA a homenagear Alberto Melo, Licínio Lima e Olívia Santos Silva pela dedicação à Educação e Formação de Adultos ao longo de décadas. Que saibamos nós, mais jovens, aprender com esse exemplo, experiência e legado e respeitar e dignificar tudo o que construíram.
No painel da tarde, Territórios e Instrumentos, o foco esteve nas intervenções das representantes do Pessoas 2030 e da ANQEP, que partilharam com os participantes não apenas o retrato atual (que mantém Portugal aprisionado num conjunto de fragilidades que perpetuam o défice de qualificações, competitividade e coesão social e territorial), mas sobretudo a esperança no trabalho realizado em rede pelas equipas dos Centros Qualifica, fora de portas, visando a mobilização de públicos que, tradicionalmente, permanecem mais afastados da educação e da formação, com a consciência de que se muito já se fez, muito mais há ainda por (e para) fazer.
Isabel Moio – Técnica de ORVC

