A ambivalência é uma propriedade característica inerente ao ser humano e a muitas das suas criações. A internet não é exceção, se por um lado facilitou o acesso à informação e aproximou as realidades, tornando ainda mais “pequena” a aldeia global em que vivemos. Por outro lado o espaço virtual é profícuo em posições radicalizadas ou demasiado egocêntricas. A responsabilidade nunca será impotável à ferramenta em si, mas ao uso que cada um decide fazer da mesma. A educação é a estratégia mais importante para combater as desigualdades e aproximar os povos, assegurando o acesso ao conhecimento e o desenvolvimento de novas competências.
De certa forma estes temas foram abordados por duas candidatas na sessão de júri de certificação de nível secundário que teve lugar no dia vinte de junho de 2025. A primeira apresentação[1] foi inspirada pela obra “No Enxame”, da autoria de Byung-Chul Han.
Começou por referir o impacto que a era digital teve em conceitos como o respeito, o nome e o tempo. Mencionou as ondas de indignação para destacar, destacando o egocentrismo, o imediatismo e o isolamento que impera na era digital. Explorou ainda o impacto da internet ao nível da transmissão da informação. Lembrou-nos que a liberdade em que vivemos é apenas aparente, pois somos pressionados a estar cada vez mais online, o trabalho invade a vida pessoa, há um foco na métrica digital (e.g. número de gostos e partilhas) e um culto pela imagem manipulada. Mencionou de que forma o cidadão ativo se tem tornado um comprador passivo, mesmo em questões políticas, concluindo com uma reflexão sobre a evolução do poder que atualmente é determinado pelos Big Data e pelo controlo de variáveis internas dos indivíduos.
A segunda apresentação[2] inspirou-se no livro “Eu Sou Malala” de Malala Yousafzai. Malala é uma figura muito importante na luta pelo direito a educação das raparigas, cuja história começou no Paquistão, mas que rapidamente chegou ao resto do mundo através do seu discurso na ONU. A candidata abordou os contributos de Malala para o combate às desigualdades de género e a defesa do direito à educação, dois dos dezassete Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS). Analisando o índice de igualdade de género, medido pela União Europeia, enfatizou que em Portugal tem-se assistido a uma evolução positiva entre 2013 e 2024, principalmente na distribuição de tarefas domésticas em casa e no acesso a cargos de poder, mas que ainda há muito a fazer.
[1] https://gamma.app/docs/No-Enxame-Digital-jaqxj32vq8183t2
[2] https://gamma.app/docs/Malala-A-luta-pelo-direito-a-educacao-n4wg9z0hji808u4
Mikael Mendes – Técnico de ORVc
Caminhos para a integração – Atividade integradora do Curso EFA
“Caminhos para a Integração” foi o fio condutor de um trabalho vivido passo a passo com emoção e consciência crítica.
O nosso primeiro passo foi dado no Auditório Gabriela Coelho com as “Narrativas de Integração”, atividade inserida na área de Cidadania e Profissionalidade – UFCD 1.
Convidámos os formandos do Projeto de Língua de Acolhimento (PLA) e foi com eles que construímos uma mesa redonda onde foram partilhadas histórias de superação de quem, vindo de diferentes partes do mundo, encontrou em Pombal um lugar, um novo rumo para a sua vida.
Mas quisemos ir mais longe. Criámos um inquérito para perceber a importância das tecnolgias para a integração dos imigrantes. Isto foi no âmbito da UFCD 5 de Sociedade, Tecnologia e Ciência, com recurso à plataforma Google Forms, e convidámos colegas do ensino noturno de diversas nacionalidades a participarem. Os resultados revelam que a internet serve como motor da tecnologia para a inclusão social, é fundamental na procura de informação sobre serviços sociais, emprego, saúde…
Também fomos ao cinema ou melhor, trouxemos o cinema até nós. Com a visualização dos filmes “Titanic” e “Missão: Mar Vermelho”, viajámos pelas emoções humanas universais: o medo, a esperança, a coragem. Dois filmes que nos ajudaram a recordar episódios de emigração ao longo dos séculos. Também nos debruçamos sobre os fluxos migratórios dos portugueses e construímos um Padlet.
E porque as fake news também distorcem a perceção pública sobre os migrantes, alimentando preconceitos e desinformação, recebemos a Dr.ª Manuela Frias, diretora do Jornal Pombal, que nos guiou numa palestra sobre Fake News. Isto foi na área Cultura, Língua e Comunicação, UFCD 5. Aprendemos a olhar as notícias com olhos críticos. Aprendemos a perguntar: qual é a fonte? Quem assina esta notícia? O título é verdadeiro ou só quer chamar a atenção?
Cada uma destas atividades não foi um fim em si mesma. Foram de crescimento pessoal, social e cultural, rumo à verdadeira integração, onde todos têm voz, onde todos contam.
Os Formandos do Curso EFA – NS
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Desafios da Sociedade do Cansaço
A T. iniciou o processo de RVCC no dia 07 de junho de 2023 num ritmo que, a manter-se, faria com que demorasse muito mais tempo a concluir um percurso que a Carta de Qualidade dos Centros Qualifica aponta como devendo ter duração desejável compreendida entre 9 a 12 meses. Tal confirmar-se-ia porque a sua disponibilidade estava comprometida com os constrangimentos que se lhe atravessavam no caminho e porque primeiro esteve sempre o mais importante. De facto, as decisões que tomou ao longo da sua vida, desde nova, deram sempre primazia ao mais importante – como intitulou o seu portefólio – e, embora o processo de RVCC também o fosse, muitas vezes não esteve no topo das prioridades e competia à Equipa do Centro respeitar quando era a sua família, a saúde ou o bem-estar físico e mental a ocupar esse lugar.
No entanto, apesar de inicialmente se refugiar na flexibilidade característica deste processo, rápido tomou consciência de que não poderia continuar àquele ritmo se pretendia libertar-se desta etapa para permitir que outras entrassem na sua vida, de tal modo que o discurso inicial de “não posso…” transformou-se em “vou fazer o esforço e vou conseguir!”. E esta é precisamente uma das expressões presentes na voz da sociedade contemporânea, como Byung-Chul Han refere na sua obra “Sociedade do Cansaço”, a qual serviu de inspiração à apresentação do trabalho final da T., na sua sessão de júri de certificação, que decorreu no dia 29 de maio de 2025.
Fazendo um paralelismo com as suas experiências pessoais e profissionais, a candidata começou por descrever a sociedade do tédio, na qual se assiste a uma fragmentação da atenção, que decorre do multitasking e da constante pressão para o desempenho, o que conduz ao assédio laboral em muitas organizações que, de acordo com Byung-Chul Han, atinge proporções pandémicas nas organizações contemporâneas. No que concerne à sociedade do cansaço, salientou que as doenças do século XXI são inflamatórias e não infeciosas e decorrem do excesso de estímulos externos e da dificuldade em descansar com qualidade, o que se repercute em estados de burnout e de depressão. Quanto ao impacto da tecnologia, a candidata destacou a hiperconectividade a que estamos sujeitos devido
à utilização do telemóvel (que se até há relativamente pouco tempo apenas permitia estabelecer comunicação através de mensagens e telefonemas, hoje é um minicomputador que trazemos no bolso), a exposição a excesso de informação (surgindo muitas vezes Fake News para as quais é necessário estar-se particularmente atento) e o papel assumido pelas redes sociais, que muitas pessoas utilizam como meio de autopromoção. No que respeita à crise da negatividade, destacou a cultura do otimismo, que leva a que muitas pessoas sejam intolerantes à frustração (não dispondo de ferramentas emocionais que lhes permitam ultrapassar adversidades) e a perda de pensamento crítico (que necessita de reflexão, questionamento, hipóteses e dúvida para se desenvolver – o que não é possível numa sociedade “mecanizada” entre um somatório asfixiante de tarefas).
A obra de Byung-Chul Han não termina sem uma recomendação para vencer todos estes desafios que perpassam a sociedade contemporânea: a valorização do ócio que, embora muitas vezes confundido com preguiça, favorece a reflexão, a introspeção, a contemplação, o autoconhecimento e o significado existencial. Na realidade, embora hoje em dia seja uma tarefa hercúlea viver sem dispositivos tecnológicos e ferramentas digitais, é possível assumir uma atitude crítica e consciente, impondo por vezes limites a nós próprios, no sentido de desacelerar o ritmo em que tudo se executa para nos permitirmos também desconectarmos do digital para nos conectarmos ao “aqui e agora”.
Isabel Moio -Técnica de ORVC
Sair da Caverna
As rotinas do dia a dia impõem-se muitas vezes sem darmos por ela, consumindo as nossas energias e remetendo-nos a um estado de “hibernação”. Em rápidos momentos de lucidez apercebemo-nos que nos fomos esquecendo dos nossos sonhos e projetos, embalados pelas obrigações e responsabilidades. No entanto, basta esta tomada de consciência para reunir coragem e lançar-se à exploração e descoberta. Foi esse o sentimento que trouxe A. à porta do nosso Centro e que a motivou a fazer o processo RVCC.
A própria acabaria por referir-se ao processo RVCC como o “Sair da Caverna”. Nesta viagem das entranhas da terra à liberdade, ela começou por avivar a brasa da curiosidade, que com um simples sopro se animou para alumiar novos caminhos. Guiada por esta nova luz, recordou que os livros são uma boa fonte de conhecimento e sem tardar começou a explorar a biblioteca. Ainda com os movimentos entorpecidos, foi treinando a escrita e a sua história foi surgindo, com altos e baixos, mas sempre muito para contar. Valorizava o apoio da equipa, mas soube percorrer muitos quilómetros sozinha, pois a ânsia de ver a luz do sol era mais forte.
Nesta aventura conheceu o “Gustavo Pedro Teixeira”, mais conhecido por GPT, um conversador nato, adepto do gerúndio, que a ajudava a organizar os seus textos. Foi preciso algum tempo e sinais de alerta para perceber que, apesar de este ser uma boa companhia, não podia acreditar em tudo o que ele dizia.
Por ter manifestado curiosidade pela ciência, foi-lhe proposta a apresentação[1] do livro “Os Limites da Ciência” de Jorge Calado para a sua sessão de júri, que decorreu a 29 de maio de 2025. Assim expos os tipos de limites da ciência, os internos, os científicos e os provisórios e explorou quatro condicionantes da ciência, que são a linguagem, a ética, a política e o dinheiro.
Agora que saiu efetivamente da caverna, tem pela frente um mundo de possibilidades para explorar.
[1] https://gamma.app/docs/Limites-da-Ciencia-wucnyxncj6istuq
Mikael Mendes – Tecnico de ORVC
Sessão de Esclarecimento sobre Fake News com o Pombal Jornal
No passado dia 14 de abril de 2025, pelas 20h00, o auditório Dra. Gabriela Coelho acolheu uma sessão de esclarecimento sobre Fake News (notícias falsas), dinamizada pela Diretora do Pombal Jornal, Manuela Frias, e pelo jornalista Rui Bimba.
A temática despertou desde logo grande interesse entre os presentes — formandos do curso EFA e candidatos do processo de RVCC — que foram envolvidos numa sessão dinâmica e esclarecedora. Com uma linguagem acessível e próxima, a palestrante conseguiu cativar a atenção da audiência e incentivou a participação ativa dos presentes.
Logo no início, foi lançada uma reflexão sobre a ligação entre Fake News e as emoções. Ficámos conscientes de que, muitas vezes, somos levados a clicar e a ler determinados artigos apenas porque os títulos nos despertam emoções fortes, sejam elas positivas ou negativas.
De seguida, foi partilhada uma quadra do poeta António Aleixo, que resume bem a natureza enganadora das Fake News:
“Para a mentira ser segura
E atingir profundidade
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.”
Os versos serviram de ponto de partida para discutir o facto de muitas notícias falsas se basearem num fundo de verdade, o que as torna ainda mais difíceis de detetar.
Recorrendo a uma apresentação do Centro Protocolar de Formação para Jornalistas (Cenjor), a jornalista orientou os participantes no processo de verificação de uma notícia. Foram destacados aspetos fundamentais como a verificação da fonte, a autoria e a data da publicação. Foi apresentado, a título de exemplo, um artigo do Pombal Jornal, publicado a 1 de abril de 2025, sobre uma suposta praia naturista no Osso da Baleia. A notícia, não assinada e sem referências oficiais, revelou-se uma forma subtil de alerta sobre o cuidado que devemos ter na análise da informação.
A sessão terminou com uma reflexão sobre a ética no jornalismo, a partir da citação:
“O jornalismo tem de explicar-se; as Fake News nunca o farão.”
A frase sublinha que o jornalismo, guiado pela ética e pela responsabilidade associada à carteira profissional, explica-se e corrige-se. As fake news não têm ética nem dever de prestação de contas — apenas enganam.
Por fim, foi abordado um novo desafio que é a Inteligência Artificial cada vez mais usada na produção e disseminação de informação. Esta realidade que requer, mais do que nunca, leitores atentos e conscientes.
Tal como defendia o sociólogo Manuel Castells, “vivemos na era da informação”, mas atualmente essa era transformou-se, perigosamente, numa era de desinformação. O apelo ao lucro, por parte de grandes plataformas, leva à multiplicação de conteúdos apelativos, muitas vezes enganosos, cujo único objetivo é gerar cliques e vender publicidade.
Esta sessão deixou claro que formar cidadãos críticos e informados é essencial para combater a desinformação. Saber ler, interpretar e questionar as notícias é hoje uma competência fundamental.
Agradecemos à Diretora do Pombal Jornal, Manuela Frias, e ao jornalista Rui Bimba a disponibilidade e generosidade em se deslocarem à escola para esta partilha tão relevante.
Os candidatos do processo RVCC de nível Secundário – Fátima Martins, Madalena Rocha, Filipe Gameiro e Luís Gonçalves
Não existe planeta B
Várias são as obras de ficção científica em que as naves circulam pelo espaço com a mesma facilidade com que hoje apanhamos um voo para uma cidade do outro lado do mundo. Nestas realidades existem múltiplos planetas habitáveis e o ser humano assume de novo o papel de explorador e por vezes colonizador desses habitats. No entanto, apesar de toda a evolução tecnológica, ainda não foi possível identificar de forma inequívoca um planeta que reúna as condições ideais à vida, quanto mais termos meios de viajar até lá. Muito provavelmente será uma questão de tempo, mas no compasso de espera, a única certeza é que apenas existe um planeta Terra e que da sua preservação depende a nossa sobrevivência. Claro que mesmo havendo outros mundos, não deixaríamos de ser responsáveis por salvaguardar o nosso “berço”, que é também o lar de muitas outras espécies.
Foi sobre este dever que se focou a apresentação[1] feita por uma candidata na sua prova de certificação do processo RVCC de nível secundário no passado dia 16 de abril de 2025, inspirada pela obra de Louise Bradford “Salvem o Mundo – Não existe planeta B”. Lembrando que o termo ecologia deriva da palavra grega oikos que significa lar, é em casa que podemos começar, implementando estratégias simples para poupar energia e água, reduzir o desperdício e evitar os produtos químicos mais nocivos para o ambiente e saúde. Por outro lado, ao adotarmos uma dieta mediterrânica, moderando a ingestão de carne e peixe e privilegiando o consumo de produtos locais e da época, bem com o azeite, podemos reduzir de forma muito significativa a nossa pegada de carbono. A água é um bem escasso (apenas 3% da água no mundo é potável), pelo que devemos implementar medidas para preservar este recurso. Para isso não basta ter em conta o nosso consumo direto, mas devemos estar alerta para a água utilizada na indústria, por exemplo para produzir um smartphone são utilizados 11 350L de água. Também o plástico apresenta grandes desafios ambientais, pois leva centenas de anos a decompor-se, produzimos toneladas deste produto todos os anos e apenas 9% do plástico chega devidamente às centrais de reciclagem. O restante vai parar aos oceanos e aterros, sendo responsável pela morte de milhares de animais marinhos. Para mudar basta repensar os nossos hábitos, nomeadamente a forma como vamos às compras. Pensando no exemplo da roupa, podemos investir em peças de vestuário de qualidade, com mais durabilidade, evitando a fast fashion. Também os tecidos escolhidos contribuem para o impacto ambiental, podendo privilegiar-se tecidos naturais. Finalmente para reduzir o consumismo podemos adotar a estratégia do armário-cápsula, em que se limita o número de peças de vestuário a 30, 50 no máximo (contando o calçado) e fazendo compras conscientes. O excedente pode ser doado, vendido ou reutilizado. Está nas mãos de cada um de nós contribuir para a mudança.
[1] https://gamma.app/docs/Salvem-o-Mundo-Nao-Existe-Planeta-B-8zjafhhedqv8cfv
Mikael Mendes – Técnico de ORVC
“Narrativas de Integração” – Mesa redonda
No dia 27 de março, no Auditório Gabriela Coelho da Escola Secundária, decorreu uma “Mesa Redonda”, subordinada ao tema “Narrativas de Integração”, que se inseriu na Atividade Integradora, no âmbito da unidade de Cidadania e Profissionalidade 1, do Curso EFA.
Contou com a participação dos formandos das turmas de Português Língua de Acolhimento, que apresentaram o seu testemunho e as suas vivências por terras pombalenses.
Os nossos convidados eram originários de França, Ucrânia, Bangladesh, Hungria, Venezuela e Brasil. Foram unânimes em considerar Portugal, um país tranquilo, organizado, acolhedor, não se sentindo por isso, discriminados.
Causas
Nem todos vieram pelos mesmos motivos.
Uns, por motivos económicos, à procura de melhores condições de vida.
Outros, preocupados com a falta de segurança nos seus países.
Procuram um futuro melhor para si e para os seus filhos.
Uma situação diferente, é a de uma migrante, que juntamente com a sua família, veio para usufruir da sua reforma.
O amor, foi o motivo que também trouxe até nós um dos convidados.
Dificuldades – Todos consideram, que as maiores dificuldades passaram pela língua, a burocracia na obtenção de documentação, o clima e a alimentação. A maioria não pensa regressar, principalmente os imigrantes, que aqui têm os seus filhos, integrados no ensino português.
Foi uma noite de narrativas de vida, que nos permitiu conhecer melhor esta realidade que o país, e mais concretamente Pombal, está a atravessar.
Os Formandos do curso EFA
Velhos? São os trapos!
As portas abertas do Centro Qualifica determinam a diversidade de perfis, de histórias e de vidas que por elas entram. Nem todos são jovens e empregados. Nem todos são de meia-idade empregados. Nem todos querem ficar acomodados à situação laboral em que se encontram. Também são reformadas algumas das pessoas que aceitam o desafio de voltar aos bancos da escola com um caderno na pasta, um coração aberto e as mãos calejadas da vida dispostas a agarrar novamente um lápis e uma caneta, mas também a aprender a explorar algumas das ferramentas informáticas a que um computador nos dá acesso.
Foi este o caso da M. e da N. que, cerca de sessenta anos depois de saírem da escola, trocaram a comodidade das noites na sua casa pelas cadeiras de uma sala que as levou a revisitar o 25 de Abril de 1974 – tendo-o vivenciado, sem na altura terem noção do que se estava a passar –, que as ajudou a suavizar a relação árida com os números quando tomaram consciência que a Matemática, se compreendida, ganha de facto sentido e significado, e que as ajudou a voltar a juntar as letras em exercícios de leitura e de escrita melhorando estas competências basilares na vida de qualquer pessoa.
Passados todos esses anos desde que a escola ficou para lá no tempo, poderá não lhes ter sido inicialmente fácil retomar hábitos enferrujados e desenvolver outros: para uma, entre as mondas do arroz e a gestão de um restaurante construído de raiz; para outra, no carrossel de aventuras criadas de restaurante em restaurante, ora por conta própria ora por conta de outrem. No entanto, tiveram em comum o exemplo de vida que foram para a Equipa, mas sobretudo para outros potenciais candidatos, que contaminaram com a sua energia e capacidade de adaptação e de superação. Afinal… Velhos? São os trapos!
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Superar desafios
A A. teve a coragem que muitos não têm: arrancar as suas raízes do seu país de origem, a Roménia, para as transplantar noutro, que a acolheu. Escolheu Portugal. Mas, para agarrar bem à terra, como gostam as plantas que querem crescer fortes e firmes, tem enfrentado as barreiras linguísticas que ainda sopram agitadas e lhe dificultam uma integração plena e mais participativa.
Frequentar um curso de Português Língua de Acolhimento poderia ajudá-la a desabrochar. Contudo, o horário de trabalho que pratica impede-a não apenas de passar mais tempo com os seus filhos, mas também de cumprir a assiduidade requerida por aquele curso.
Por isso, viu no processo de RVCC um rasgo de luz e um raio de sol que poderia aquecer-lhe as pétalas e amaciar os espinhos da língua portuguesa. Não havendo soluções ideais nem milagres, a Equipa procurou dar-lhe as condições de que necessitam as plantas corajosas para crescer com determinação. Assim, durante este percurso foi ganhando a autoconfiança que lhe permitiu melhorar as suas competências na escrita, na oralidade e na leitura, mas também na informática e no raciocínio matemático, ciente de que o caminho a percorrer na aprendizagem ao longo (e em todos os espaços) da vida não encerra com o término do processo de RVCC.
Aos poucos, a A. foi-se libertando da sua timidez inicial, mostrando a fibra de que também é feita de modo a poder partilhar, no dia 03 de abril de 2025, o resultado de um percurso de (auto)descoberta e de (auto)conhecimento que lhe foi exigente e desafiante, mas que a Equipa do Centro Qualifica também acredita que terá sido enriquecedor, construtivo e projetivo.
Isabel Moio – Técnica de ORVC
Ciência e Sociedade
É inegável que a qualidade de vida em geral tem aumentado um pouco por todo o mundo e que isso só foi alcançado graças ao desenvolvimento científico e tecnológico. Contudo, ainda existem vozes que se levantam para por em causa factos comprovados, indo contra milhares de estudos e até daquilo que uma simples observação pode corroborar. Se há áreas em que a subjetividade é uma parte integrante, como a religião ou a arte, noutras deve prevalecer o raciocínio objetivo. E não deveríamos escolher ao sabor do vento, quando e em que temáticas reconhecemos validade ao conhecimento científico. O “achismo” e as opiniões assentes em meras perceções devem ficar confinadas às conversas de café e mesmo aí a sua utilidade é questionável. Mas se há quem se recuse a ver as evidências, por teimosia ou má vontade, também existem muitos de nós que apenas são condicionados pela desinformação que circula. Felizmente, existem autores que se dedicam ao esclarecimento de equívocos e divulgação da ciência, tal como é o caso de David Marçal. No seu livro “Como perder amigos rapidamente” de 2024 desconstrói algumas ideias erradas, apresentando factos científicos, num texto de fácil leitura bem-humorado. E foi esta a obra usada pelos dois candidatos que se apresentaram à sessão de júri de certificação de nível secundário do dia 20 de março de 2025.
A primeira apresentação[1] focada nos capítulos “Como estragar a conversa de circunstância” e “Como ser cancelado”, começou por desafiar a nossa perceção da realidade, demonstrando com dados do Gapminder que o mundo está cada vez melhor. No entanto o tom utilizado nos meios de comunicação tem-se tornado mais negativo, contaminando a nossa visão do mundo. Isto não significa que não haja coisas a mudar, apenas que as conquistas alcançadas nos últimos anos não são negligenciáveis. Não é só o jornalismo que condiciona a nossas ideias, também os filmes e livros podem induzir-nos em erro, por exemplo contrariamente ao que é por vezes veiculado, a ciência não é uma aliada das ditaduras. Com o movimento pós-moderno, que defende a subjetividade da verdade, alegando que são reforçadas determinadas teorias como forma de controlo e poder, surge também a confusão entre opinião e facto. No entanto é com o método científico que encontramos respostas para temas polémicas como é o caso da participação de mulheres transgénero em categorias femininas de desporto. É graças à ciência que conseguimos desenvolver a medicina para respeitar as características de diferentes populações, sem ressuscitar a ideia comprovadamente errada de existirem raças humanas. Mesmo que alguns momentos da história possam ter a si associados ideais ou acontecimentos terríveis, isso não pode servir para apagar as conquistas alcançadas nesses mesmos períodos, por exemplo apesar de durante os Descobrimento ter havido escravatura, esta época marca grandes desenvolvimentos científicos e tecnológicos que possibilitaram a descoberta da rota marítima para a Índia e a potencialização da globalização.
A segunda apresentação[2] dedicou-se aos capítulos “Como criar mau ambiente” e “Como arranjar problemas de saúde”. No que ao ambiente diz respeito e apesar da extensa bibliografia científica que comprova a existência do aquecimento global, ainda há quem ponha em causa este fenómeno. Mas se o negacionismo é problemático, no outro polo temos discursos alarmistas, que ignoram os dados, para semear o pânico. Por exemplo, não se espera que o aquecimento global leve a um colapso social, sendo que as Nações Unidas até preveem o aumento da população mundial até 2100. Também a ideia de que as alterações climáticas potenciaram a fome tem algumas lacunas, por não ter em conta o aumento muito significativo da produtividade agrícola dos últimos anos. Se nesta história o dióxido de carbono tem sido o vilão, não devemos esquecer-nos que foi graças à Revolução Industrial, assente na utilização de combustíveis fósseis, que se impulsionou a economia e a melhoria das condições de vida. Outro vilão incompreendido tem sido a energia nuclear, que contrariamente às ideias populares, representam grandes vantagens quando comparadas com outras fontes de energia (mesmo as renováveis). A verdade é que há cada vez mais empresas a rentabilizarem produtos ditos ecológicos, mesmo quando não o são (“greenwashing”), como foi o caso das trotinetes que apenas são mais verdes quando comparadas com uma viagem de carro a combustão. Já no que concerne o tema da saúde, apesar do elevado número de pacientes que procuram as terapias alternativas estas são pseudociências, no sentido em que existem pouquíssimos estudos que comprovem a sua eficácia e estes apresentam sérios problemas metodológicos. Assim o mais provável é que os benefícios relatados por quem recorre a estas técnicas estejam apenas a sentir um efeito placebo. Para uma análise mais detalhada dos estudos relativos a terapias alternativas, nomeadamente a acupuntura, é possível consultar o site cochrane.
[1] https://gamma.app/docs/Como-Perder-Amigos-Rapidamente-Comunicacao-Social-e-Sociedade-1v6ttmxz8e3yasy
[2] https://gamma.app/docs/Como-Perder-Amigos-Rapidamente-Ambiente-e-Saude-ifury4afld1irf3
Mikael Mendes – Técnico de ORVC